Quase 46 anos após ter a vida interrompida dentro de uma sala de aula, o estudante Cezar Morais Leite ainda é relembrado na história da Universidade Federal do Pará (UFPA). Morto em 1980, durante o regime militar, ele será homenageado com a concessão de um diploma de graduação simbólico, aprovado recentemente pela instituição como forma de preservar a memória dele e reconhecer as violações de direitos humanos sofridas à época.
Natural de Belém, Cezar tinha apenas 19 anos de idade e cursava o terceiro semestre do Bacharelado em Matemática. Na manhã do dia 10 de março de 1980, ele assistia a uma aula da disciplina Estudos dos Problemas Brasileiros quando foi atingido por disparos efetuados por um agente da repressão infiltrado na universidade. O crime ocorreu na sala FB-2, do Bloco F, no campus básico.
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O estudante chegou a ser levado ao pronto-socorro municipal de Belém, mas não resistiu aos ferimentos. O episódio deixou marcas profundas na história da UFPA de quando a violência atingiu a sala de aula, os corredores da instituição e provocou indignação diante do abuso de poder e do clima de vigilância imposto à comunidade acadêmica durante a ditadura.
Na época, a morte de Cezar mobilizou a cidade. Um cortejo fúnebre percorreu as ruas de Belém e reuniu cerca de cinco mil pessoas, mesmo sob chuva intensa. Entre cartazes e carros de som, foram entoadas canções como “Para não dizer que não falei das flores” e “Menino”, transformando a morte dele em um ato coletivo de despedida e protesto contra o regime militar.
A concessão do diploma simbólico foi oficializada após proposta apresentada pelo reitor Gilmar Pereira da Silva e aprovada por unanimidade pelo Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe), com relatoria do professor Edmar Tavares da Costa. Segundo o conselho, o diploma tem caráter estritamente simbólico e está fundamentado nos princípios da justiça de transição, na valorização da memória histórica e nas orientações da Comissão Nacional da Verdade.
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O reitor destacou que uma cerimônia solene será realizada no campus, com a participação da família de Cezar e da comunidade acadêmica. Para Edmar Tavares, a iniciativa representa uma forma de reparação simbólica e reafirma o compromisso da UFPA com a democracia e os direitos humanos.
A homenagem se soma a ações semelhantes realizadas por outras universidades públicas brasileiras, como USP, UFMG, UFAL e UNIRIO, que também concederam diplomas simbólicos a estudantes mortos ou desaparecidos durante o período da ditadura militar.
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