Durante a conferência anual Meta Connect, realizada nesta quarta-feira (24), Mark Zuckerberg fez críticas indiretas à Apple e apresentou uma novidade que reforça a estratégia da empresa de reduzir a dependência dos sistemas operacionais de grandes empresas de tecnologia. O Muse Charm, dispositivo portátil com tamanho semelhante ao de um relógio de bolso, foi anunciado como uma nova forma de acessar o agente de inteligência artificial Muse no mundo real.
O aparelho permite que o usuário acesse o Muse diretamente ao tocar no dispositivo, sem precisar recorrer a aplicativos de inteligência artificial instalados no smartphone. A novidade faz parte de uma estratégia mais ampla da Meta para criar uma plataforma própria de computação e diminuir a dependência de sistemas desenvolvidos pela Apple e pelo Google.
Meta muda foco após aposta no metaverso
A apresentação também marcou uma mudança na estratégia de longo prazo da Meta. Durante anos, Zuckerberg defendeu o metaverso como o futuro da computação, conceito que levou a empresa a mudar seu nome de Facebook para Meta, em 2021.
Agora, o executivo aposta na chamada “superinteligência pessoal” como o próximo grande avanço tecnológico da companhia.
“Na verdade, está bastante claro que a superinteligência pessoal não só virá primeiro, como será muito maior e mais importante”, afirmou Zuckerberg durante o evento.
Segundo ele, a Meta passou a concentrar esforços no desenvolvimento de dispositivos capazes de oferecer acesso direto a sistemas de inteligência artificial. O Muse também deverá chegar em breve aos óculos inteligentes da empresa.
Muse ganha espaço após lançamento
A aposta da Meta ocorre após o crescimento rápido do Muse. O agente de inteligência artificial registrou milhões de downloads desde seu lançamento, em 8 de setembro. Segundo analistas citados no material, o desempenho pode representar um dos maiores lançamentos de aplicativos nos Estados Unidos desde a chegada do ChatGPT, em novembro de 2022.
O avanço do Muse também repercutiu no mercado financeiro. Investidores passaram a considerar o potencial da ferramenta para automatizar tarefas como reservas de voos e preenchimento de declarações de impostos.
Nesse cenário, ações de empresas consideradas beneficiadas pelo avanço dos agentes de IA, como a Shopify, ganharam atenção, enquanto companhias vistas como mais expostas à automação, entre elas a agência de viagens Booking e a Intuit, responsável pelo software TurboTax, sofreram pressão.
As ações da Meta avançaram mais de 3% nesta quinta-feira (25), depois de acumularem alta de quase 24% desde o lançamento do Muse. A companhia caminha para acrescentar cerca de US$ 56 bilhões em valor de mercado, após ter encerrado a quarta-feira com aproximadamente US$ 324 bilhões em valor de mercado.
Dispositivo aposta em nostalgia
O Muse Charm pode encontrar espaço especialmente entre consumidores mais jovens, segundo analistas. O lançamento ocorre em um momento de retomada de produtos com características nostálgicas, como câmeras digitais, celulares dobráveis e tocadores de MP3.
A Geração Z, formada por pessoas de 14 a 29 anos, também apresenta formas diferentes de interação com assistentes de inteligência artificial. Em vez de utilizá-los apenas como ferramentas de busca, muitos jovens recorrem à IA para conversar, obter companhia ou discutir diferentes assuntos, utilizando recursos como mensagens de voz, vídeos curtos e chatbots.
“O Muse Charm pode ganhar força entre a Geração Z e os consumidores mais jovens. A combinação de IA, moda e personalização pode atrair os usuários mais jovens, especialmente se for acessível e fácil de usar”, afirmou Linda Sui, fundadora da empresa de pesquisa de mercado Smart Analytics Global.
Como funciona o Muse Charm?
O dispositivo tem uma tela de aproximadamente 2 polegadas (5 centímetros), controlada pelo polegar, e apresenta no centro um personagem do Muse que pode ser personalizado pelo usuário.
O aparelho também conta com modem 5G integrado, permitindo o acesso ao agente de IA mesmo sem conexão Wi-Fi. Apesar disso, o dispositivo não possui função para realizar chamadas telefônicas.
Para Jitesh Ubrani, diretor da empresa de pesquisa de mercado IDC, o produto pode atrair consumidores que não têm interesse em utilizar óculos inteligentes.
“Eles são atraentes para pessoas que talvez não queiram usar óculos ou que não confiem neles”, afirmou.
Ubrani também comparou a proposta do dispositivo aos Tamagotchi, os bichinhos virtuais que se tornaram populares no final dos anos 1990.
“Algumas pessoas podem se lembrar do Tamagotchi, e isso pode evocar essa lembrança”, disse o analista. Segundo ele, dispositivos desse tamanho também podem ser capazes de executar modelos menores de linguagem localmente, permitindo o funcionamento de recursos de IA diretamente no aparelho.
Desafio será conquistar o mercado de massa
Apesar do potencial, o Muse Charm terá de superar o histórico de outros dispositivos de inteligência artificial que chegaram ao mercado com grande expectativa e não conseguiram alcançar o público em larga escala.
Um dos exemplos é o Rabbit R1, aparelho portátil lançado pela startup Rabbit Inc. no início de 2024. O dispositivo chamou atenção por sua proposta de oferecer recursos de IA generativa por meio de uma pequena tela e um botão, mas enfrentou críticas relacionadas às limitações dos recursos e à confiabilidade da experiência oferecida.
Para Linda Sui, o mesmo desafio pode atingir o novo dispositivo da Meta.
“Eu seria cautelosa quanto ao seu potencial no mercado de massa”, afirmou. Na avaliação da analista, o Muse Charm precisará oferecer funções que não sejam facilmente substituídas por smartphones, relógios, fones de ouvido ou óculos inteligentes para deixar de ser apenas um produto destinado aos primeiros usuários e alcançar um público mais amplo.
O desempenho do dispositivo nos próximos meses deverá indicar se a aposta da Meta conseguirá transformar o acesso à inteligência artificial em uma nova categoria de produto ou se ficará restrita a um público específico.
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