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ARTIGO

O nódulo pulmonar do Papa

O artigo foi escrito pelo Dr. Roger Normando Jr. que é um cirurgião torácico com mais de três décadas de experiência. Confira!

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Imagem ilustrativa da notícia O nódulo pulmonar do Papa camera O Papa Leão XIV recebeu alta hospitalar no sábado, 17 de outubro de 2026, e retornou ao Vaticano. | Divulgação/ Vaticano

Pela rede social, a paciente de Belém envia-me o print de um canal de notícias: “Papa Leão XIV retira câncer de pulmão”. Segue o comentário efusivo: “Meu gêmeo de nódulo! Vai se curar [...]. Retirou o lobo inferior direito também”. A “gêmea” é 25 anos mais jovem que Leão XIV e obteve achado tomográfico após checape.

Já a segunda paciente, esta da mesma idade do Papa, procedente de Porto de Moz, do interior da Amazônia, é usuária de porronca e realizou radiografia na sua cidade. Encontrou nódulo no pulmão esquerdo. Pegou o barco e em cinco horas aportou em Altamira. Realizou tomografia e foi descrita como lesão suspeita de malignidade. Ressalta-se que o tabagismo aumenta o risco de malignidade.

O que a jovem e o Papa têm em comum, além do Adenocarcinoma Pulmonar, nome do nódulo maligno, é que não são fumantes. E o mais vistoso: descobriram após uma vistoria, mesmo sem sintomas. Já a senhorinha do interior apresentou falta de ar e seguiu para investigação, até chegar à capital. O resultado da biopsia cirúrgica foi radiante para ela: nódulo benigno - cicatriz de tuberculose.

Há de se ressaltar que a grande maioria das lesões são benignas, achadas após exame de imagem, em que as cicatrizes podem ter a mesma conformação de um câncer. Mesmo assim, a palavra “nódulo”, em sua essência, assusta. O roteiro é seguir numa investigação mais profunda, seja pelo cirurgião torácico, seja pelo pneumologista.

É claro que o achado do Papa leva à comoção, e todos se unem numa corrente de orações, porém, a maior contribuição vem da divulgação, que joga luz e realça a realidade do mais mortal dos cânceres. Ademais, alerta-se os países para planificarem melhor seus rastreamentos, ainda precário no Brasil e mais ainda na região amazônica.

O checape de consultórios e rastreamento de grandes populações ainda representam um desvão na saúde brasileira, cuja política pública não inclui rastreamento por tomografia, e acaba perdendo a oportunidade de se achar lesões nodulares e curar cânceres. A mira do rastreamento aponta pra pacientes fumantes, ou ex-fumante, entre 50 e 80 anos. Em nossa região, podemos acrescentar que as cicatrizes de tuberculose e as fumaças dos desmatamentos da queima de biomassa são fatores que aumentam a chance de carcinogênese e poderia estar incluído no rol das indicações de rastreamento regional.

Os cirurgiões torácicos italianos que operaram o pontífice têm expertise em cirurgia minimamente invasiva, ou seja, realizam abordagem com pequenas incisões, que acabam trazendo o benefício precoce da ressocialização, com menos dor. As pacientes brasileiras foram tratadas pelo mesmo método minimamente invasivo, empregado no Papa. E o melhor de tudo é que, sendo lesão precoce, a chance de cura é alta e bem provável que sequer façam quimio, radio e imunoterapia, como medidas complementares.

Certamente a divulgação pela mídia e por parte do papado sobre a doença do pontífice e a sua chance de cura é providencial e acenderá o alerta para a única forma de diminuir as mortes por câncer de pulmão no mundo: rastreamento por tomografia, ou abandonando o hábito de fumar, incluindo os cigarros eletrônicos.

Lá em Porto de Moz, na parede acima do fogão a lenha, o relógio deixou de apontar as horas, e se importou em buscar o diagnóstico, por desejo próprio; na procissão do Círio de Nazaré, a jovem operada caminha com o protótipo de seu pulmão, abraçado à sua cura. A selfie registrou o milagre.

No Vaticano, entre orações que ecoam, a floresta pede silêncio das queimadas e guarda a esperança de que o câncer deixe de ser descoberto tarde demais; que o nódulo do Papa seja alerta para milhares sem acesso ao diagnóstico. Essa oportunidade precisa chegar antes que falte o ar, antes que o barco parta, antes que surja o primeiro sintoma.

Na luta geral contra os cânceres, informação ilumina rota, diagnóstico precoce abre portas e o acesso à saúde faz a diferença entre perder uma vida e celebrar uma cura.

Médico Roger Normando especial para o DOL

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