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PARÁ QUE ORGULHA E TRANSFORMA

Bioeconomia no Pará movimenta R$ 13,5 bilhões por ano

Setor impulsionado pela floresta, inovação e saberes tradicionais consolida o Pará como referência em desenvolvimento sustentável na Amazônia.

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Imagem ilustrativa da notícia Bioeconomia no Pará movimenta R$ 13,5 bilhões por ano camera Setor impulsionado pela floresta, inovação e saberes tradicionais consolida o Pará como referência em desenvolvimento sustentável na Amazônia. | Divulgação

A floresta em pé já movimenta bilhões de reais no Pará e a tecnologia começa a abrir uma nova fronteira econômica para a Amazônia. Impulsionada pela inovação, pela ciência e pelos conhecimentos tradicionais das populações amazônicas, a chamada Bioeconomia 4.0 ganha força como uma das principais apostas para transformar a biodiversidade da região em desenvolvimento sustentável, sem derrubar a floresta.

O conceito vai além da exploração convencional de matérias-primas e propõe uma mudança profunda na forma como a riqueza amazônica é produzida. Em vez de exportar apenas produtos brutos, como sementes, frutos ou óleos naturais, a ideia é agregar valor dentro da própria Amazônia, utilizando inteligência artificial, biotecnologia, automação, rastreabilidade digital e pesquisa científica para criar produtos de alto valor agregado voltados às indústrias alimentícia, farmacêutica, cosmética e tecnológica.

Na prática, a Bioeconomia 4.0 busca unir o conhecimento ancestral da floresta às tecnologias mais avançadas da chamada quarta revolução industrial. O modelo aposta em cadeias produtivas inteligentes, capazes de gerar renda, ampliar a industrialização local e reduzir a dependência de atividades predatórias, como o desmatamento ilegal e a exploração desordenada de recursos naturais.Bioeconomia movimenta 13,5 bilhões por ano no Pará

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É dentro desse cenário que ganha relevância o novo Relatório Técnico Preliminar coordenado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), em parceria com universidades federais. O levantamento mostra que a bioeconomia da sociobiodiversidade já movimenta R$ 13,5 bilhões por ano no Pará e se consolida como uma das atividades econômicas mais estratégicas para o futuro da Amazônia.

O estudo, elaborado com metodologias da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou o protagonismo de cadeias profundamente ligadas à cultura e à economia amazônica. A mandioca lidera a movimentação financeira, com R$ 6,5 bilhões em Valor Bruto da Produção (VBP), seguida pela pesca e aquicultura, com R$ 2,7 bilhões, pelo cacau, com R$ 1,7 bilhão, e pelo açaí, com R$ 1,5 bilhão anuais.

Embora o Valor Bruto da Produção da mineração e da agropecuária tradicional ainda seja superior, os pesquisadores destacam que a bioeconomia possui um impacto social muito mais distribuído. O setor ocupa mais de 271 mil pessoas e gera cerca de R$ 1,4 bilhão em massa salarial no Estado.

Outro dado importante revela o potencial multiplicador da atividade. Cada R$ 1 investido na bioeconomia gera R$ 1,13 no Produto Interno Bruto (PIB) estadual. Esse efeito aumenta conforme a cadeia avança: chega a R$ 1,14 na matéria-prima, R$ 1,27 na indústria e R$ 1,40 na comercialização. Isso significa que quanto maior o processamento e a industrialização dentro do Pará, maior será a geração de riqueza e empregos.

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Para o presidente da Fapespa, Marcel Botelho, o estudo ajuda a consolidar um novo paradigma econômico para a Amazônia. “A Rede de Bioeconomia é resultado de uma articulação que transcende a formação de um consórcio de pesquisa, representando uma resposta estruturada à necessidade premente de construir um novo paradigma de desenvolvimento para a Amazônia, fundamentado em dados robustos e cientificamente validados”, afirmou.Cumaru é exemplo de Bioeconomia 4.0

A lógica da Bioeconomia 4.0 aparece de forma clara no caso do cumaru, uma das sementes amazônicas mais valorizadas pela indústria internacional de fragrâncias e cosméticos. O estudo revelou que a produção paraense é muito maior do que indicam os dados oficiais. Enquanto o IBGE registrava 148 toneladas comercializadas, movimentando R$ 13,3 milhões, os pesquisadores identificaram 267 toneladas efetivas, gerando R$ 24,4 milhões.

O problema é que boa parte do valor agregado ainda sai da Amazônia. Quando industrializado, o cumaru ganha cerca de 330% de valorização, mas esse beneficiamento ocorre majoritariamente fora do Pará. Na etapa inicial da cadeia, o coletor retém quase 70% do valor adicionado. Já no ciclo industrial, a indústria concentra cerca de 74% da riqueza gerada.

“O cumaru possui enorme potencial de inovação local e agregação de valor dentro do Pará”, destacou o professor Luiz Gonzaga Feijão da Silva, durante o I Encontro da Cadeia Produtiva do Cumaru no Oeste do Pará, realizado em Santarém.

É justamente nesse ponto que entram as ferramentas da Bioeconomia 4.0. Startups, universidades, cooperativas e centros de pesquisa vêm desenvolvendo soluções tecnológicas para rastrear cadeias produtivas, monitorar áreas de manejo sustentável, ampliar a transparência ambiental e conectar pequenos produtores diretamente ao mercado nacional e internacional.

Aplicativos de rastreabilidade digital, por exemplo, já permitem acompanhar a origem de produtos da floresta desde a coleta até a comercialização final. Plataformas inteligentes também ajudam a reduzir desperdícios, organizar estoques e ampliar o acesso das comunidades tradicionais ao comércio eletrônico e aos mercados verdes globais.Conhecimentos ancestrais

A tecnologia, porém, não substitui os conhecimentos ancestrais da Amazônia — ela se soma a eles. A Bioeconomia 4.0 reconhece povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e comunidades extrativistas como protagonistas centrais na preservação da floresta e na construção de soluções sustentáveis.

Os desafios, no entanto, ainda são enormes. O estudo da Fapespa aponta que a informalidade continua sendo um dos principais gargalos econômicos da região. Na cadeia da mandioca, por exemplo, mais de 99% da produção ocorre fora dos registros fiscais, reflexo de uma atividade fortemente baseada em estruturas familiares e comunitárias.

A distribuição desigual da renda também preocupa os pesquisadores. Na cadeia da castanha-do-pará, os coletores ficam com apenas 2,9% do valor final do produto. Já em cadeias mais organizadas, como as da andiroba e da copaíba, associações e cooperativas permitem que as comunidades retenham entre 19% e 31% da riqueza gerada.

Além disso, a emergência climática já começa a provocar impactos diretos na produção amazônica. Pesquisas realizadas em municípios como Marabá, Rondon do Pará, Santarém e Oriximiná identificaram perdas severas na produção de castanha, mandioca e açaí em decorrência das secas extremas e queimadas, afetando diretamente a segurança alimentar e a renda das famílias.Fortalecer cooperativas

Para os especialistas, fortalecer cooperativas, ampliar a industrialização local e investir em ciência e tecnologia serão passos decisivos para consolidar a chamada “economia da floresta em pé” — modelo baseado no uso sustentável da biodiversidade amazônica e na valorização dos territórios tradicionais.

O Pará já possui uma estrutura de políticas públicas voltadas para essa transição, sustentada pela Política Estadual sobre Mudanças Climáticas, pelo Plano Estadual Amazônia Agora e pelo Plano Estadual de Bioeconomia.

A diretora de Estatística e Tecnologia e Gestão da Informação da Fapespa, Atyliana Dias, afirma que a bioeconomia já deixou de ser apenas uma promessa. “O setor já existe, gera bilhões e sustenta milhares de famílias. O desafio agora é transformá-lo em um forte vetor de desenvolvimento sustentável e equitativo para a Amazônia”, destacou.

A próxima etapa da pesquisa será apresentada em novembro e deve aprofundar temas estratégicos da Bioeconomia 4.0, como matriz tecnológica, consumo intermediário, integração das cadeias do cacau e da mandioca e a criação de um Índice de Resiliência Socioambiental dos municípios paraenses.

No centro dessa transformação está uma ideia cada vez mais forte: o futuro econômico da Amazônia pode estar menos na derrubada da floresta e mais na inteligência aplicada à biodiversidade que ela abriga há séculos.Instituto Amazônia 4.0

Do ponto de vista econômico, a floresta amazônica é bastante explorada de maneira predatória e agressiva – via pecuária, agricultura e mineração, por exemplo. O conceito de Amazônia 4.0 tem como ponto de partida a ideia de que essas formas não representam o melhor potencial econômico da região.

“O Amazônia 4.0 é uma maneira de, conceitualmente, começar a mostrar que o grande potencial [econômico] da floresta é mantê-la em pé. É desenvolver sistemas que aproveitem os produtos da biodiversidade”, disse, em entrevista ao jornal digital Nexo, o cientista e uma das maiores autoridades mundiais sobre a Amazônia, Carlos Nobre, cientista-sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP, copresidente do Painel Científico para a Amazônia e um dos líderes do Instituto Amazônia 4.0.

O conceito de Amazônia 4.0 visa, de forma geral, agregar valor a produtos extraídos na região da floresta amazônica, usando tecnologia de ponta. A intenção é introduzir conhecimentos em áreas como nanotecnologia, robótica e computação para desenvolver a chamada “bioeconomia” na região. E sem derrubar a floresta.

Um exemplo seria a operação de uma fábrica que utiliza tecnologia avançada para, a partir de um produto extraído por comunidades locais (como o açaí, por exemplo), criar um subproduto que pode ser comercializado a valores mais altos do que o próprio bem primário. “É por isso, aliás, que o projeto tem o nome “Amazônia 4.0”. Trata-se da ideia de incorporar avanços da Quarta Revolução Digital (ou Indústria 4.0) na região amazônica”, explica o cientista.

O conceito de Amazônia 4.0 está fortemente relacionado à bioeconomia. Bioeconomia é o nome dado ao conjunto de atividades que produzem itens que têm origem nos recursos naturais e foram produzidos com alta tecnologia. São exemplos desses produtos os chamados biofármacos, biocombustíveis e produtos biodegradáveis. A produção nesse ramo se diferencia de outros setores que exploram recursos naturais porque ela propõe um uso racional dos recursos e a substituição de produtos feitos a partir de atividades poluentes por itens de origem limpa.

Além disso, o Amazônia 4.0 também tem relação com a ideia de economia circular. A ideia busca prolongar o ciclo de vida de produtos e serviços, trocando o descarte por novos usos. Assim funciona a reciclagem, por exemplo.

Bioeconomia no Pará movimenta R$ 13,5 bilhões por ano
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