Quinze anos após o desabamento do edifício Real Class, a tragédia segue viva na memória da cidade e nas marcas deixadas em moradores, famílias e na paisagem urbana. O episódio, ocorrido em janeiro de 2011, não foi apenas um acidente de grandes proporções, mas um alerta doloroso sobre falhas na construção civil, fiscalização e responsabilidade técnica. Mesmo com o passar do tempo, o caso ainda desperta comoção e permanece como um dos acontecimentos mais impactantes da história recente da capital.
O prédio Real Class, empreendimento da construtora Real Engenharia, estava em fase avançada de construção na travessa Três de Maio, entre as avenidas Governador José Malcher e Magalhães Barata, quando veio abaixo na tarde chuvosa de sábado, 29 de janeiro de 2011, por volta das 14h. O colapso repentino dos 32 pavimentos chocou a população, que não presenciava um desastre semelhante desde 1987, ano do desmoronamento do edifício Raimundo Farias, que vitimou 40 trabalhadores.
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Em questão de segundos, a estrutura se transformou em um amontoado de escombros. Veículos e pedestres foram atingidos, pessoas ficaram feridas e três vidas foram perdidas. Cerca de 100 famílias precisaram deixar suas casas, já que imóveis vizinhos sofreram danos estruturais com a queda do edifício.
Logo após o acidente, uma ampla operação de resgate foi montada, reunindo Defesa Civil, Exército, Cruz Vermelha, Samu, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Fuzileiros Navais. Cães farejadores auxiliaram nas buscas, que duraram seis dias até a localização dos corpos de Raimunda Ribeiro Fonseca, moradora de uma residência próxima, e dos operários Manoel da Paixão e José Barros.
O empreendimento havia iniciado as obras em 2008 e tinha previsão de entrega para o fim de 2011. Dos 60 apartamentos planejados, cerca de 70% já estavam comercializados. As unidades, com 122 metros quadrados e três suítes, eram negociadas por aproximadamente R$ 500 mil.
Antes mesmo do colapso, o Ministério Público já havia recebido diversas reclamações de moradores da área, que denunciavam possíveis irregularidades na obra. O canteiro chegou a ser embargado e interditado em três ocasiões, principalmente por problemas relacionados à segurança, como a queda de materiais sobre casas vizinhas e riscos aos trabalhadores.
O recomeço após a tragédia
A travessa Três de Maio permaneceu interditada por seis dias após o desabamento. Durante esse período, moradores de casas e prédios do entorno precisaram deixar seus imóveis. Algumas famílias ficaram hospedadas em hotéis por até dois meses, com despesas assumidas pela construtora responsável.
Em 8 de fevereiro de 2011, cerca de 30 funcionários da Real Engenharia iniciaram vistorias e trabalhos de recuperação em mais de 40 residências atingidas. Apesar disso, o trauma psicológico fez com que muitos moradores temessem retornar, especialmente os residentes do edifício Blumenau, que chegou a apresentar estalos no momento da evacuação. O prédio só foi liberado para reocupação em 24 de fevereiro, após avaliação do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves.
As conclusões técnicas
Menos de dois meses após o desastre, um laudo elaborado pelo Grupo de Análise Experimental de Estruturas e Materiais da Universidade Federal do Pará (UFPA), a pedido do Crea-PA, apontou erro de cálculo estrutural como a principal causa do desabamento. A responsabilidade foi atribuída ao engenheiro calculista Raimundo Lobato da Silva.
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De acordo com o estudo, a edificação não resistiu à ação dos ventos nem ao peso da própria estrutura de concreto já executada. O documento também destacou que os pilares do térreo eram mais estreitos do que o adequado, apresentando fissuras e rompimentos súbitos. Outro laudo oficial, elaborado por peritos da Engenharia Legal do CPC Renato Chaves, reforçou que o uso de estribos com dimensões inferiores às exigidas contribuiu decisivamente para a queda do prédio.
A tragédia registrada em filme
A história do Real Class também ganhou as telas. O documentário “Real”, dirigido por Vitor Souza Lima, então com 26 anos, foi lançado cerca de oito meses após o acidente. A produção contou com a participação da produtora paraense Greenvision, em parceria com a Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas do Pará (ABDeC-PA) e o Circuito Fora do Eixo, eternizando o episódio e ampliando o debate sobre segurança e responsabilidade na construção civil.
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