As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro de 2026, podem mudar a correlação de forças no Congresso e enfraquecer a presidência de Donald Trump. Com aprovação de 31%, segundo pesquisa Reuters/Ipsos, o republicano enfrenta um cenário desfavorável, com projeções que apontam vantagem democrata na disputa pela Câmara dos Representantes.
Diferentemente das eleições presidenciais, as eleições de meio de mandato renovam parte do Legislativo sem colocar diretamente em disputa a permanência do presidente no cargo. Em 2026, todas as 435 cadeiras da Câmara serão renovadas, enquanto 35 das 100 vagas do Senado estarão em disputa.
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Democratas podem conquistar a Câmara e Senado
Uma projeção do site Race to the White House atribui aos democratas 88,3% de chances de conquistar a maioria na Câmara, com estimativa de 233 assentos, contra 201 republicanos. O Cook Political Report, por sua vez, considera sólidas 185 cadeiras democratas e 171 republicanas, enquanto outras 79 permanecem indefinidas ou competitivas.
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No Senado, a disputa é mais equilibrada. Uma análise do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM classifica nove estados como seguramente democratas e 14 como solidamente republicanos. Outros seis apresentam tendências divididas, enquanto seis são considerados imprevisíveis. Esses resultados podem definir se Trump manterá uma maioria favorável no Legislativo.
Perda de maioria limita poder presidencial
Para Maurício Fronzaglia, professor de Relações Internacionais da Universidade Mackenzie, as eleições funcionam como uma avaliação do desempenho do presidente diante dos eleitores. A perda de apoio popular costuma se refletir na composição do Congresso e pode dificultar a implementação da agenda governamental.
"Essas eleições acabam sendo um termômetro de como está a popularidade do governo. Se essa temperatura está ‘baixa’, o eleitor costuma punir o presidente retirando-lhe a maioria na Câmara ou no Senado."
O especialista lembra que a perda de maioria legislativa não é inédita na política americana. Presidentes republicanos e democratas já enfrentaram esse cenário, como George W. Bush, Bill Clinton e Barack Obama. No caso de Obama, os democratas perderam o Senado no meio do primeiro mandato e a Câmara durante o segundo.
Fronzaglia ressalta que o sistema político dos Estados Unidos torna mais difícil governar sem apoio parlamentar. Ao contrário do modelo brasileiro, em que o presidente pode negociar com diferentes partidos para formar maiorias conforme cada votação, o bipartidarismo americano restringe as possibilidades de composição entre democratas e republicanos.
"Então, se ele perde a maioria, ele não consegue aprovar leis porque democratas não vão votar a favor de projetos republicanos, sejam eles quais forem."
Impeachment e investigações entram no horizonte
Uma eventual maioria democrata na Câmara poderia abrir caminho para um novo processo de impeachment contra Trump. O presidente manteria os poderes constitucionais do Executivo, incluindo o veto, mas ficaria mais exposto à fiscalização parlamentar, a audiências e a investigações. A possibilidade de afastamento dependeria do andamento do processo e da composição do Senado.
Trump já enfrentou processos de impeachment durante seu primeiro mandato e foi absolvido pelo Senado. Segundo os especialistas ouvidos pelo UOL, uma nova iniciativa democrata também teria potencial para provocar desgaste político e afetar a imagem do Partido Republicano, mesmo que não resultasse na saída do presidente.
Guerra no Irã pressiona a Casa Branca
A economia e a política externa também podem influenciar o resultado eleitoral. A guerra no Irã, iniciada pelos Estados Unidos em fevereiro, provocou o bloqueio do Estreito de Hormuz e contribuiu para a alta internacional do petróleo, com reflexos no preço dos combustíveis americanos. Uma maioria democrata no Congresso poderia pressionar o governo por meio do controle dos recursos destinados ao conflito.
O professor Lucas Souza Martins, da Universidade de Temple, avalia que a combinação entre pressão econômica e fiscalização legislativa pode aumentar o incentivo para uma solução negociada. Enquanto isso, Trump também precisará administrar temas como segurança e imigração, que afetam diretamente a vida dos eleitores.
Brasil não é prioridade imediata
Apesar da eleição brasileira, especialistas avaliam que o país não está entre as principais preocupações imediatas de Trump. Segundo Fronzaglia, o presidente americano tem outras questões prioritárias, como o preço dos combustíveis, a guerra entre Rússia e Ucrânia e a crise no Irã.
Trump demonstrou preferência pela eleição de Flávio Bolsonaro (PL) e chegou a classificar como uma "vitória" seu desempenho no primeiro turno. Uma publicação do republicano também mencionou o Brasil ao comparar a rapidez da apuração brasileira com a contagem de votos nos Estados Unidos, embora inicialmente tenha confundido o país com a Índia. Para Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM, Marco Rubio é quem acompanha mais diretamente os desdobramentos eleitorais brasileiros.
Resultado pode influenciar a disputa de 2028
Uma derrota republicana nas eleições de novembro pode obrigar Trump a concentrar esforços na agenda interna e na preservação da força política do partido antes da próxima eleição presidencial, em 2028. Sem maioria no Congresso, o presidente teria menos espaço para aprovar leis, enfrentaria maior fiscalização e precisaria lidar com uma oposição fortalecida.
O resultado, portanto, não determina diretamente o fim do mandato de Trump, mas pode redefinir os limites de sua atuação nos dois últimos anos de governo. A composição da Câmara e do Senado será decisiva para estabelecer o alcance das medidas presidenciais, o futuro das investigações e a capacidade republicana de manter sua agenda política.
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