Pegadas fossilizadas de cerca de 1,43 milhão de anos encontradas nas margens do Lago Turkana, no Quênia, estão ampliando o conhecimento científico sobre o Paranthropus boisei, um dos ancestrais extintos da humanidade. A pesquisa, publicada nos Anais da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (PNAS), mostra que a espécie tinha porte físico maior do que se imaginava, apresentava comportamento social complexo e coexistiu com o Homo erectus no início do Pleistoceno.
O estudo foi conduzido por uma equipe internacional formada por pesquisadores do Quênia e dos Estados Unidos, que analisou um conjunto de rastros atribuídos a oito indivíduos de Paranthropus boisei. As pegadas foram preservadas na lama que cobria as margens do Lago Turkana e permaneceram intactas por mais de um milhão de anos.
CONTEÚDO RELACIONADO
- Imigrantes do Marrocos morrem em Ceuta ao tentar chegar à Espanha
- Terremoto de 5,6 é registrado no Peru próximo à fronteira com o Brasil
- Hamas anuncia plano de desarmamento em Gaza; Israel não confirma
Embora os vestígios tenham sido encontrados em 1978 pela geóloga Kay Behrensmeyer, pesquisadora sênior e curadora de paleontologia de vertebrados do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, o sítio arqueológico foi protegido por uma camada de areia durante décadas. Apenas novas escavações, realizadas em 2016 e 2023, revelaram toda a dimensão da descoberta.
Quer mais notícias internacionais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.
O trabalho é liderado por Kevin Hatala, professor associado de Biologia da Universidade de Chatham, em Pittsburgh. Segundo o pesquisador, cada sítio arqueológico representa um registro único da evolução humana. "Estamos rapidamente construindo um álbum de fotos com diferentes perspectivas sobre a anatomia, a locomoção, o comportamento e os ambientes dos hominídeos durante o início do Pleistoceno", afirmou Hatala.
RASTROS PRESERVAM UM MOMENTO DA PRÉ-HISTÓRIA
O sítio arqueológico GaJi10 reúne 21 pegadas atribuídas a oito indivíduos, além de marcas deixadas por hipopótamos, antílopes e outros animais que habitavam a região. A idade dos vestígios foi determinada por meio da análise de cinzas vulcânicas presentes nas rochas do local, indicando que as pegadas foram registradas há aproximadamente 1,43 milhão de anos.
Naquele período, o entorno do Lago Turkana era ocupado por uma rica fauna, incluindo crocodilos, elefantes e duas espécies de hominídeos: o Paranthropus boisei, conhecido pelos dentes robustos, e o Homo erectus, considerado um dos possíveis ancestrais diretos da espécie humana moderna.
Para Kay Behrensmeyer, o grande valor científico das pegadas está justamente na capacidade de registrar um instante específico da história. "As pegadas preservam um momento no tempo e permitem que as pessoas se conectem muito mais facilmente com esses antigos hominídeos do que apenas observando fragmentos de ossos ou mandíbulas", explicou.
CONVIVÊNCIA ENTRE DUAS ESPÉCIES HUMANAS
Em 2024, os pesquisadores já haviam descrito outro conjunto de pegadas, ligeiramente mais antigo, encontrado na mesma região. Na ocasião, os rastros mostraram que Paranthropus boisei e Homo erectus ocuparam o mesmo ambiente durante centenas de milhares de anos.
Apesar de não ser possível determinar como essas espécies interagiam, as evidências confirmam que elas compartilharam os mesmos espaços naturais em diferentes momentos.
Segundo Behrensmeyer, os registros permitem afirmar que ambos estavam presentes na região quando os rastros foram deixados, ainda que a natureza dessa convivência permaneça desconhecida.
PEGADAS INDICAM PORTE FÍSICO MAIOR DO QUE O ESPERADO
A análise da anatomia das pegadas levou os pesquisadores a uma conclusão que desafia interpretações anteriores sobre o Paranthropus boisei. Até então, acreditava-se que essa espécie possuía porte consideravelmente menor do que o Homo erectus. No entanto, o tamanho dos rastros sugere que os indivíduos poderiam alcançar cerca de 1,80 metro de altura e pesar aproximadamente 75 quilos, dimensões semelhantes às estimadas para o Homo erectus.
De acordo com Hatala, as pegadas apresentam características corporais muito próximas às observadas em humanos modernos, indicando que ambas as espécies possuíam tamanho semelhante enquanto compartilhavam o mesmo ambiente.
EVIDÊNCIAS APONTAM ORGANIZAÇÃO SOCIAL
Além das informações anatômicas, os pesquisadores identificaram indícios relevantes sobre o comportamento social do Paranthropus boisei. Os rastros sugerem que oito indivíduos, predominantemente machos adultos, caminhavam juntos, sem sinais da presença de fêmeas ou filhotes. Esse padrão pode indicar uma organização social mais elaborada do que se acreditava anteriormente.
Para Neil Roach, pesquisador da Universidade Harvard e coautor do estudo, os machos provavelmente viviam em grupos maiores, competindo por parceiras, mas cooperando em determinados momentos para enfrentar os desafios de um ambiente repleto de grandes predadores.
LAGO TURKUNA REFORÇA IMPORTÂNCIA PARA A EVOLUÇÃO HUMANA
A pesquisadora Purity Kiura, dos Museus Nacionais do Quênia, destacou que a descoberta reforça o papel do Lago Turkana como um dos principais cenários para o estudo da evolução humana. Segundo ela, o conjunto de pegadas fortalece a relevância científica da região e evidencia a necessidade de preservar esse patrimônio arqueológico de valor mundial.
O sítio GaJi10 integra uma extensa rede de centenas de locais com pegadas fossilizadas distribuídas ao longo da margem leste do lago, formadas durante um período superior a 100 mil anos. Os cientistas acreditam que estudos sobre a geologia local poderão explicar por que esses antigos hominídeos utilizavam esse ambiente com tanta frequência.
NOVAS PESQUISAS DEVEM REVELAR MAIS DETALHES
Os pesquisadores planejam retornar ao Quênia ainda este ano para ampliar as escavações e investigar outros sítios com pegadas fossilizadas. Para Kay Behrensmeyer, que realiza trabalhos de campo na região desde 1969, o potencial científico do Lago Turkana continua surpreendendo.
Segundo a geóloga, quando as primeiras pegadas foram encontradas em 1978, ninguém imaginava que elas se transformariam em um dos maiores conjuntos de evidências sobre a ecologia, o comportamento e a evolução dos antigos hominídeos já descobertos.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar