O azul cristalino das Maldivas, frequentemente associado ao turismo paradisíaco e às expedições marítimas de luxo, transformou-se nos últimos dias em cenário de uma tragédia marcada por silêncio, escuridão e tensão nas profundezas do oceano. Em meio às águas do Atol de Vaavu, uma complexa operação internacional de resgate passou a desafiar limites humanos e técnicos após o desaparecimento de cinco mergulhadores italianos em uma caverna subaquática de difícil acesso.
As buscas mobilizaram autoridades locais, mergulhadores especializados e equipes internacionais, revelando não apenas a dimensão do acidente, mas também os perigos extremos envolvidos em mergulhos profundos em cavernas marinhas. Até esta terça-feira (19), corpos de dois mergulhadores haviam sido retirados do local, enquanto outros dois aguardavam recuperação em uma operação marcada inclusive pela morte de um sargento das forças de defesa das Maldivas.
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CORPOS FORAM ENCONTRADOS EM REGIÃO PROFUNDA DA CAVERNA
Os mergulhadores faziam parte de um grupo de cinco italianos que entrou na caverna subaquática na última semana. Um dos corpos já havia sido localizado na quinta-feira (14), data do desaparecimento do grupo.
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Com a retomada das buscas na segunda-feira (18), equipes de resgate encontraram os quatro corpos restantes na parte mais profunda da formação marinha. Segundo Mohamed Hussain Shareef, porta-voz do governo das Maldivas, um homem e uma mulher foram localizados na terceira câmara da caverna e encaminhados ao necrotério da capital Malé.
A caverna possui cerca de 200 metros de extensão e chega a 70 metros de profundidade - equivalente à altura aproximada de um prédio de 20 andares. As autoridades destacaram que o limite permitido para mergulho recreativo nas Maldivas é de 30 metros.
QUEM ERAM OS MERGULHADORES ITALIANOS
Entre as vítimas estão o instrutor de mergulho Gianluca Benedetti, a professora associada de Ecologia da Universidade de Gênova, Monica Montefalcone, sua filha Giorgia Sommacal, o biólogo marinho Federico Gualtieri e a pesquisadora Muriel Oddenino.
O corpo de Benedetti foi encontrado primeiro, próximo à entrada da caverna, o que levou as autoridades a acreditarem inicialmente que os demais integrantes do grupo também estivessem na área. Um sexto mergulhador desistiu de entrar na água momentos antes da expedição.
O grupo participava de uma viagem a bordo do navio Duke of York, segundo informações do Ministério das Relações Exteriores da Itália. Após a tragédia, a Cruz Vermelha prestou apoio psicológico a cerca de 20 italianos que permaneceram embarcados.
MILITAR MORREU DURANTE MISSÃO DE RECUPERAÇÃO
A operação de resgate também terminou em tragédia para as forças de defesa das Maldivas. O sargento e mergulhador sênior Mohamed Mahudhee, de 43 anos, morreu no sábado (16) durante uma segunda missão de recuperação dos corpos.
As autoridades acreditam que Mahudhee sofreu doença descompressiva, condição causada pela rápida alteração de pressão durante mergulhos profundos. O problema é comum em mergulhadores autônomos e pode provocar sintomas graves e fatais.
Após a morte do militar, as buscas chegaram a ser suspensas temporariamente antes de serem retomadas nesta segunda-feira. Segundo o governo local, cada incursão subaquática teve duração limitada a cerca de três horas por conta das exigências de oxigênio e descompressão.
CORRENTES FORTES E ESCURIDÃO DIFICULTARAM BUSCAS
As autoridades classificaram as condições dentro da caverna como extremamente perigosas. Correntes imprevisíveis, passagens estreitas, escuridão total e presença de lodo tornaram a operação ainda mais delicada.
O especialista britânico John Volanthen, conhecido internacionalmente pela participação no resgate do time juvenil de futebol da Tailândia em 2018, afirmou que a profundidade da caverna e a baixa visibilidade dificultam drasticamente qualquer tentativa de sobrevivência ou resgate.
Segundo ele, mergulhadores costumam instalar linhas-guia para conseguir retornar à saída em ambientes cavernosos, mas fatores como narcose por profundidade e pânico podem comprometer completamente a orientação dos exploradores. "À medida que se aprofundam, o efeito da narcose pode causar desorientação e tornar menos provável encontrar a saída", explicou.
Volanthen também destacou que o simples contato com o fundo ou as paredes pode levantar sedimentos e deixar a água completamente turva, dificultando ainda mais a localização do caminho de volta.
FAMÍLIA ACREDITA QUE "ALGO ACONTECEU LÁ EMBAIXO"
Carlo Sommacal, marido de Monica Montefalcone e pai de Giorgia, afirmou à imprensa italiana que não consegue compreender o que provocou o acidente, especialmente pela experiência da esposa e da filha em mergulhos profundos. Ele descreveu Monica como uma profissional cuidadosa, disciplinada e incapaz de colocar colegas ou familiares em risco.
Segundo relatos divulgados pela imprensa italiana, Monica havia sobrevivido ao tsunami de 2004 enquanto mergulhava no Quênia, experiência que reforçava sua reputação de mergulhadora experiente.
TECNOLOGIA ESPECIALIZADA FOI USADA NA OPERAÇÃO
A missão de localização dos corpos contou com apoio da DAN, organização internacional especializada em segurança no mergulho. As equipes utilizaram scooters subaquáticas e cilindros especiais capazes de reciclar o ar, ampliando o tempo de permanência em profundidade.
Laura Moroney, CEO da DAN, afirmou que a prioridade da equipe era evitar novas vítimas durante as buscas. Segundo ela, qualquer condição considerada excessivamente perigosa levaria à interrupção imediata das operações para reavaliação da estratégia.
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