A Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré recebeu na segunda-feira (24/08), a Missa do Mandato, celebração que marca oficialmente o início das peregrinações e da preparação para o Círio de Nazaré 2026. A missa foi presidida pelo arcebispo de Belém, Dom Júlio Akamine.
Durante a celebração, as imagens de Nossa Senhora de Nazaré que serão usadas durante as novenas nas casas dos devotos foram abençoadas e entregues aos participantes das peregrinações. A partir de agora, as imagens seguem para os lares paraenses, dando início a uma das mais antigas tradições que antecedem a grande festividade mariana.
As peregrinações de Nossa Senhora de Nazaré tiveram início em 1972, por iniciativa do padre Giovanni Incampo, então pároco da Basílica Santuário. A ideia surgiu a partir de uma sugestão do padre redentorista Daniel Tamaccia, que havia conhecido experiências semelhantes na região Sul do país.
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O objetivo era criar uma preparação espiritual mais profunda para os paraenses antes do Círio. Na primeira edição, 300 imagens da Virgem de Nazaré foram distribuídas entre leigos da paróquia. Cada participante assumiu o compromisso de levar a imagem a cerca de 30 residências.
A iniciativa alcançou aproximadamente 9 mil casas já no primeiro ano. O sucesso fez com que, em 1973, outras paróquias de Belém também pedissem para participar da tradição.

Ao longo das décadas, as peregrinações se expandiram para diferentes municípios do Pará. Em 1994, foi lançado o Livro das Peregrinações, utilizado como orientação espiritual para os encontros realizados durante os meses de agosto e setembro.
Segundo estimativa da Diretoria da Festa de Nazaré deste ano, cerca de 120 mil residências são visitadas pelas imagens a cada edição.
Amor por Nossa Senhora de Nazaré
Entre os devotos, o influenciador Gleydson Malcher enfatizou que a Missa do Mandato representa o primeiro passo de uma preparação que envolve aspectos físicos, psicológicos e, principalmente, espirituais. “É um preparo muito importante psicologicamente, fisicamente e espiritualmente para todos nós. Acredito que essa missa é o pontapé inicial para que isso se realize da melhor forma”, afirmou.
De família católica, o influenciador também define Nossa Senhora de Nazaré como uma figura materna que oferece acolhimento aos devotos nos diferentes momentos da vida. “Graças a Deus, eu nasci e me criei num berço católico, minha família toda é católica. E Nossa Senhora é uma mãe que nos ampara a todo momento. Quando é de mãe é o que nos de fato faz ser acolhido, a gente se sente muito abraçado por Nossa Senhora em qualquer momento da nossa vida”, disse ele.
Fé além da religião
A tradição dos encontros com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré também reúne diferentes histórias e experiências religiosas. O empresário Jarlen Torres conta que, embora tenha vindo de uma família evangélica, acompanha o Círio e mantém uma relação de devoção com Nossa Senhora de Nazaré.
“Faz parte de mim acompanhar o Círio. É por isso que a gente faz o nosso Círio Fluvial na minha empresa. Nós somos devotos de Nossa Senhora de Nazaré”, relatou.
Para ele, a Missa do Mandato tem um significado especial por representar o início da preparação para o Círio. Jarlen também ressaltou que a fé pode aproximar pessoas independentemente da religião. “É tudo Deus, independente da religião, católico ou evangélico. A gente está aqui para fazer o bem, para acolher e para dar amor e fé na Nazinha”, afirmou.
Já a diarista Letícia Guimarães também mantém uma ligação especial com a festividade. Ela conta que o filho se tornou guarda de Nossa Senhora de Nazaré, o que tornou sua relação com o Círio ainda mais significativa.
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Apesar de não conseguir receber as peregrinações em casa por causa do espaço reduzido, Letícia acompanha os encontros nas residências de outros devotos. Ela também guarda em casa uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, adquirida após a antiga ter quebrado.
“Eu tive esse privilégio de ter ela lá na minha casa. A Imagem Peregrina também já esteve na casa da minha tia. Então, Nossa Senhora sempre está com a gente. De alguma forma, ela está com a gente”, contou.
Devoção mantém tradição viva
A administradora Rosângela Siqueira, que nasceu no sul do Pará e mora em Belém há duas décadas, conta que sua devoção à Nossa Senhora de Nazaré foi fortalecida depois que chegou à capital paraense e passou a conviver com a fé da família.
Ela foi batizada e recebeu os sacramentos em Belém e também passou a incluir os filhos na vivência religiosa. Segundo Rosângela, a família já teria vivenciado três situações consideradas milagrosas, fortalecendo ainda mais a devoção.
A família acompanha as principais programações do Círio e participa das trasladações. O marido de Rosângela é guarda de Nossa Senhora há 13 anos, e os filhos também seguem a tradição. “Falar é uma coisa, mas o que a gente sente quando está dentro da igreja, quando vê o Círio, quando vai atrás da trasladação, é uma coisa inacreditável”, afirmou.

Ao lado dela, Maria do Carmo, dona de casa, também destacou a importância da fé transmitida entre gerações. Devota desde o nascimento, ela guarda uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré que, segundo a família, tem aproximadamente 200 anos.
A peça passou de geração em geração e hoje é tratada como uma relíquia familiar. Para Maria do Carmo, a tradição representa não apenas uma manifestação de fé, mas também um legado que deve continuar entre filhos, netos e bisnetos.
Acolhimento
O Arcebispo de Belém, Dom Júlio Akamine, também comentou sobre a importância da missa para o início das festividades nazarenas, principalmente como preparação espiritual para o Círio.
“O Círio de Nazaré é uma manifestação cultural, sem dúvida. É uma manifestação que ultrapassa também a os limites da Igreja Católica, sem dúvida. Mas é um evento religioso, é um encontro com Jesus Cristo, devoção a Nossa Senhora”, disse Dom Júlio.

Para o religioso, a missão de encontrar com as pessoas em suas casas é como colher frutos espirituais ofertados por Deus.
“Sabemos que Deus nos oferece os frutos espirituais. Aquilo que Deus tem para nos oferecer é muito mais do que aquilo que a gente pede e que a gente espera. Por isso que a gente precisa preparar o coração. Às vezes a gente não recebe, não porque Deus não queira dar, mas porque o nosso coração é muito estreito, muito limitado e pequeno. A preparação tem este objetivo, de alargar as dimensões do nosso coração, para que nós possamos receber mais”, concluiu.
Com a Missa do Mandato, as peregrinações começam a percorrer os lares paraenses, dando início à contagem regressiva para o Círio de Nazaré 2026 e renovando uma tradição que há mais de cinco décadas prepara os devotos para a maior manifestação religiosa do Pará.
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