A eugenia é o ponto de partida do primeiro episódio de Revelando, série de reportagens especiais apresentada por Samara Felippo que investiga a origem de discursos atuais sobre pobreza, maternidade e controle da reprodução. Lançado pelo projeto Calma Urgente, o episódio percorre diferentes períodos da história brasileira, do passado escravocrata às denúncias de esterilização em massa no século 20 e às propostas políticas mais recentes.
Com cerca de 24 minutos, o programa parte de uma pergunta provocadora: quem decide quem pode ou não ter filhos? A investigação confronta vídeos publicados nas redes sociais em que influenciadores defendem que pessoas pobres deveriam adiar ou até ser impedidas de ter filhos e procura estabelecer conexões históricas com políticas de controle populacional.
CONTEÚDO RELACIONADO
- Maternidade como escolha: mulheres redefinem seus caminhos
- Entre amor e desafios, maternidade atípica é marcada por transformações
- Comércio de escravizados joga luzes sobre a história do Pará
DOS VÍDEOS NAS REDES SOCIAIS ÀS IDEIAS DE EUGENIA
O episódio começa mostrando declarações encontradas no TikTok, Instagram e outras plataformas digitais. Em alguns dos conteúdos apresentados, a defesa do planejamento financeiro para ter filhos aparece acompanhada de afirmações mais explícitas sobre a reprodução de pessoas pobres.
Entre os exemplos exibidos estão discursos segundo os quais pessoas de baixa renda não deveriam ter filhos ou deveriam comprovar condições financeiras antes de constituir uma família. O programa também mostra manifestações que associam pobreza à irresponsabilidade e chegam a defender mecanismos obrigatórios de controle de natalidade.
Quer mais notícias nacionais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.
A investigação amplia o foco ao abordar também comentários sobre crianças com deficiência e a defesa de exames genéticos para impedir determinados nascimentos. A partir desses exemplos, Samara Felippo apresenta a eugenia como uma ideologia historicamente associada à tentativa de selecionar características consideradas desejáveis na população.
O PASSADO ESCRAVOCRATA COMO PONTO DE PARTIDA
Um dos caminhos escolhidos pelo documentário para reconstruir essa história começa no período da escravidão. A produção aborda o controle exercido pelos proprietários sobre a reprodução de mulheres escravizadas, especialmente aquelas utilizadas como amas de leite. A lógica apresentada é a de que a capacidade reprodutiva dessas mulheres era submetida aos interesses econômicos dos senhores.
O episódio também recupera relatos históricos sobre crianças separadas de suas mães escravizadas e sobre a utilização do leite materno de mulheres negras na alimentação de crianças brancas.
Com o desenvolvimento das escolas médicas no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro e em Salvador, surgiram discursos médicos que passaram a classificar o leite das amas negras como inadequado ou potencialmente transmissor de doenças. A mudança contribuiu para uma mudança das práticas relacionadas à amamentação e à maternidade das mulheres negras.
O documentário estabelece, a partir daí, uma linha histórica entre escravidão, raça e controle reprodutivo - uma interpretação que também aparece em estudos acadêmicos sobre a permanência de discursos eugênicos no Brasil.
A EUGENIA E O SÉCULO 20
A produção também lembra que a eugenia foi utilizada em diferentes países para justificar políticas de exclusão e esterilização e esteve entre as ideias mobilizadas pelo nazismo para sustentar políticas raciais e perseguições contra judeus, pessoas com deficiência, homossexuais, ciganos e outros grupos.
No Brasil, as ideias eugenísticas tiveram diferentes expressões e influenciaram debates médicos, sanitários, raciais e populacionais. Pesquisas históricas mostram que, especialmente a partir das décadas de 1920 e 1930, setores do movimento eugênico brasileiro passaram a defender medidas como restrições matrimoniais, controle da imigração e esterilização.
A EXPLOSÃO DAS ESTERELIZAÇÕES
Um dos principais documentos recuperados pelo Revelando é o relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou a esterilização de mulheres no Brasil no início dos anos 1990.
Segundo o relatório da CPMI, cerca de 45% das mulheres brasileiras em idade reprodutiva estavam esterilizadas. O documento apontava diferenças expressivas entre os estados: no Maranhão, o índice registrado chegava a 79,8%; em Goiás, 74,7%; em Alagoas, 64,3%; em Pernambuco, 64,1%; e no Piauí, 62,7%.
A comissão foi criada para investigar a incidência da esterilização em massa e as responsabilidades relacionadas ao fenômeno. O relatório analisou ainda a participação de organizações nacionais e estrangeiras e a falta de acesso a diferentes métodos contraceptivos.
Estudos posteriores também destacaram a concentração das esterilizações entre mulheres de menor renda e escolaridade e discutiram a relação entre raça, classe social, cesarianas e esterilização feminina.
QUANDO O PLANEJAMENTO FAMILIAR VIRA CONTROLE
O episódio diferencia o direito ao planejamento familiar de políticas que condicionem ou limitem a capacidade reprodutiva de determinados grupos.
A laqueadura tubária é apresentada como um procedimento definitivo de esterilização feminina. O documentário ressalta que a cirurgia pode representar uma escolha legítima para mulheres que desejam não ter mais filhos, mas questiona situações em que a decisão é tomada sem informação adequada, sob pressão ou sem consentimento.
Uma das entrevistadas relata ter sido submetida à laqueadura aos 19 anos acreditando que poderia reverter o procedimento posteriormente. Anos depois, descobriu que a cirurgia não poderia simplesmente ser desfeita. Outro depoimento apresentado no programa descreve uma mulher que afirma ter sido esterilizada durante uma cesariana sem ter dado consentimento para o procedimento.
A CPMI de 1993 também registrou denúncias relacionadas à desinformação sobre as consequências da esterilização, à falta de oferta de métodos contraceptivos e à atuação de entidades envolvidas com planejamento familiar.
O DINHEIRO ESTRANGEIRO E O CONTROLE POPULACIONAL
Outro eixo da investigação é o financiamento internacional de programas de controle populacional. O episódio cita organizações e fundações estrangeiras que participaram, em diferentes períodos, de iniciativas relacionadas à contracepção e ao planejamento familiar no Brasil.
Pesquisas históricas confirmam a existência de participação de instituições internacionais nessa área e mostram que o debate estava inserido no contexto internacional do chamado controle populacional durante a Guerra Fria.
O relatório da CPMI de 1993 também apontou a existência de interesse internacional no controle demográfico brasileiro e mencionou organizações como a Bemfam e o CPAIMC.
O CASO DO PERU
Para mostrar que o problema ultrapassou as fronteiras brasileiras, Revelando recupera o caso do Peru durante o governo de Alberto Fujimori.
O programa relata que centenas de milhares de mulheres pobres e indígenas foram submetidas a esterilizações sem consentimento no país. O episódio utiliza o caso para discutir como políticas apresentadas como planejamento familiar podem adquirir caráter coercitivo quando a decisão sobre a reprodução deixa de pertencer às próprias mulheres.
ELON MUSK E A DISCUSSÃO SOBRE QUEM DEVE SE REPRODUZIR
A investigação então retorna ao presente e apresenta outro aspecto do debate: enquanto discursos defendem que pobres deveriam ter menos filhos, algumas figuras bilionárias são associadas a uma visão oposta, baseada no incentivo à reprodução de determinados grupos.
O episódio cita Elon Musk e reproduz relatos de uma de suas ex-companheiras sobre a defesa de uma grande quantidade de filhos e o uso de barriga de aluguel. A produção utiliza o contraste para discutir a ideia de que determinados grupos seriam estimulados a se reproduzir enquanto outros seriam desencorajados.
Também é citado Jeffrey Epstein, apresentado no programa como outro multimilionário que teria defendido a utilização de barrigas de aluguel para ampliar o número de descendentes.
A POLÍTICA BRASILEIRA ENTRA NA INVESTIGAÇÃO
A parte final do episódio chega ao debate político brasileiro e recupera declarações antigas sobre controle de natalidade.
O programa apresenta uma declaração de Jair Bolsonaro, registrada em vídeo de 2006, na qual ele defendia uma política de controle da natalidade e fazia referência positiva às medidas adotadas pela China. O episódio também recupera declarações posteriores de Bolsonaro nas quais ele demonstrava admiração por Alberto Fujimori.
O programa ainda resgata uma proposta eleitoral de Rogéria Bolsonaro, então candidata à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, relacionada à esterilização voluntária como mecanismo de combate ao crescimento populacional.
Outro trecho apresentado envolve Carlos Bolsonaro. Em 2014, quando era vereador, ele publicou uma proposta relacionada à concessão do Bolsa Família condicionada à realização de laqueadura ou vasectomia. O episódio também recupera declarações dele favoráveis a uma política de controle de natalidade.
Esses registros são utilizados pelo documentário para estabelecer uma continuidade entre discursos históricos sobre controle populacional e manifestações políticas mais recentes.
EUGENIA, RAÇA E POBREZA
O Revelando termina voltando ao recorte racial. O episódio relaciona os dados históricos de esterilização a estados brasileiros com elevados índices de pobreza e população negra e destaca novamente o Maranhão, onde a CPMI registrou índice de 79,8% entre as mulheres em idade reprodutiva.
A relação entre esterilização, raça e desigualdade social foi, de fato, objeto de investigação da CPMI. O relatório reuniu depoimentos de representantes do movimento negro que denunciavam o possível direcionamento de políticas de controle demográfico à população negra. Pesquisas acadêmicas posteriores também analisaram essas denúncias e seus efeitos no debate sobre justiça reprodutiva.
Ao final, Samara Felippo sustenta que a história apresentada no programa ajuda a compreender como discursos sobre pobreza, reprodução e valor social das pessoas podem adquirir novas formas ao longo do tempo.
ONDE ASSISTIR AO REVELANDO
Revelando é uma série especial do Calma Urgente, com apresentação de Samara Felippo. O projeto é descrito como uma série de reportagens sobre temas considerados relevantes para a compreensão do Brasil e tem distribuição apoiada pelo ICL, Mídia Ninja e 342 Artes. O primeiro episódio, "Mulheres pobres podem ter filhos?", foi publicado em setembro de 2026.
A série tem periodicidade semanal, com novos episódios previstos para as terças-feiras.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar