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PESQUISA

Biólogos encontram antidepressivo no cérebro de tubarões no litoral do RJ

A equipe analisou 20 tubarões-martelo de duas espécies capturados acidentalmente por pescadores parceiros do projeto em pontos do litoral do Rio.

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Imagem ilustrativa da notícia Biólogos encontram antidepressivo no cérebro de tubarões no litoral do RJ camera A pesquisa no RJ levou cerca de três anos entre a coleta dos animais, as análises laboratoriais e a interpretação dos dados. | (Foto: Reprodução/Pexels)

Pesquisadores do Projeto EcoShark, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), identificaram a presença do antidepressivo sertralina no cérebro de tubarões-martelo capturados no litoral fluminense.

Segundo a coordenadora da pesquisa, a bióloga Mariana Alonso, este é o primeiro registro do tipo no Brasil e um dos poucos descritos no mundo. O achado acende um alerta sobre a contaminação dos oceanos por resíduos de medicamentos e seus possíveis impactos em espécies marinhas ameaçadas de extinção.

Os resultados ainda não foram revisados por pares. De acordo com a professora, o artigo deverá ser submetido à publicação em revista científica até o fim deste mês.

A equipe analisou 20 tubarões-martelo de duas espécies —o tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewini) e o tubarão-martelo-liso (Sphyrna zygaena)— capturados acidentalmente por pescadores parceiros do projeto em pontos do litoral do Rio de Janeiro, como Copacabana, Barra da Tijuca, Recreio e Guaratiba.

Foram examinados diferentes tecidos e órgãos, entre eles fígado, músculo, brânquias, cérebro e as ampolas de Lorenzini, estruturas sensoriais localizadas na cabeça dos tubarões. O trabalho levou cerca de três anos entre a coleta dos animais, as análises laboratoriais e a interpretação dos dados.

"Normalmente, o fígado é o órgão onde encontramos a maior parte dos contaminantes. Desta vez, a sertralina apareceu praticamente apenas no cérebro. Foi isso que nos chamou atenção", afirma Mariana Alonso.

Segundo a bióloga, a sertralina foi detectada na maior parte dos tubarões analisados. Em alguns exemplares o antidepressivo não foi detectado, explicou Alonso, possivelmente por limitações relacionadas ao tamanho das amostras e à sensibilidade dos equipamentos utilizados.

Questionados, os pesquisadores responsáveis pelo estudo disseram que não divulgariam o número exato de animais em que a substância foi identificada porque o artigo ainda está em fase final de submissão a uma revista científica e os dados detalhados só serão tornados públicos após a revisão por pares.

A presença do medicamento justamente no cérebro preocupa porque esse é o órgão onde a sertralina age em humanos. Apesar disso, Alonso ressalta que ainda não há evidências de que os tubarões tenham sofrido alterações em decorrência da contaminação.

"Encontrar o contaminante foi o primeiro passo. Agora precisamos entender se ele interfere nos níveis de serotonina dos tubarões e se isso pode alterar seu comportamento", diz.

Em experimentos com peixes-zebra, espécie amplamente utilizada em pesquisas de laboratório, estudos anteriores associaram a exposição à sertralina a alterações como natação mais lenta e dificuldades de aprendizagem. Ainda não se sabe se efeitos semelhantes podem ocorrer em tubarões.

A próxima etapa da pesquisa buscará justamente responder essa questão. Os pesquisadores pretendem ampliar o número de animais analisados para verificar se filhotes, juvenis e adultos apresentam níveis diferentes de contaminação e investigar se a substância pode ser transferida da mãe para os filhotes durante a gestação.

Ambas as espécies analisadas são consideradas ameaçadas de extinção. O tubarão-martelo-liso é classificado como vulnerável, enquanto o tubarão-martelo-recortado é considerado criticamente ameaçado, um dos níveis mais elevados de risco de desaparecimento.

"Os tubarões são considerados sentinelas dos oceanos. Se chegou ao tubarão, [a substância] passou por toda a cadeia alimentar", afirma Alonso.

A sertralina pode chegar aos tubarões tanto pela água, quando presente no esgoto jogado no mar, quanto pela alimentação, se forem consumidas presas contaminadas.

A pesquisadora afirma que o problema vai além da ausência de coleta e tratamento de esgoto, problema que ocorre em parte do Rio, já que mesmo as estações convencionais não conseguem remover completamente resíduos de medicamentos, conhecidos como contaminantes emergentes.

Além da sertralina, o grupo já identificou em estudos anteriores outros contaminantes em tubarões e golfinhos, como filtros solares, inseticidas, parabenos e resíduos industriais. Segundo a pesquisadora, a combinação dessas substâncias pode potencializar seus efeitos nos organismos marinhos.

Alonso afirma que transformar esse tipo de evidência científica em políticas públicas costuma levar muitos anos. "A gente tenta levar essas informações aos tomadores de decisão, mas esse é um processo muito lento. Normalmente são necessários muitos estudos mostrando efeitos tóxicos para que um composto passe a ser restringido", diz.

Para a pesquisadora, a descoberta reforça como contaminantes presentes no cotidiano acabam alcançando o ambiente marinho. "Nosso banho não vai pelo ralo [e some]. Chega no tubarão."

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