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FASE DE TESTES

Polilaminina ainda não é remédio: especialistas fazem alerta

Proteína desenvolvida na UFRJ mobiliza pacientes e vira alvo de ações judiciais, mas especialistas alertam que ainda não há comprovação científica de eficácia

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Imagem ilustrativa da notícia Polilaminina ainda não é remédio: especialistas fazem alerta camera Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro conduzem estudos sobre a polilaminina, proteína experimental investigada para regeneração da medula espinhal | ( Divulgação)

Em poucos dias, o nome "polilaminina" saiu dos laboratórios e ganhou as redes sociais, os tribunais e as rodas de conversas. Apelidada por internautas de “molécula de Deus” por causa do formato em cruz, a proteína passou a ser associada à possibilidade de regeneração da medula espinhal e, para muitos, à promessa de recuperar movimentos perdidos.

Desenvolvida em laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a polilaminina é estudada como um composto capaz de estimular conexões nervosas na medula espinhal. A pesquisa é liderada pela bióloga Tatiana Sampaio e investiga se a proteína pode ajudar na retomada da função motora em pessoas com lesões medulares, como casos de paraplegia e tetraplegia.

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A repercussão foi imediata. Publicações nas redes sociais passaram a tratar o composto como uma possível cura. A mobilização se transformou em judicialização: pacientes em diferentes estados acionaram a Justiça para obter acesso às doses, mesmo sem registro como medicamento.

O que é a polilaminina

A laminina é uma proteína naturalmente presente no organismo, especialmente na fase embrionária, com papel importante na formação de conexões entre neurônios. Após anos de estudo, o grupo da UFRJ desenvolveu uma versão sintética aprimorada (a polilaminina) e observou, em experimentos laboratoriais, melhora na comunicação entre nervos.

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Em 2010, testes com ratos indicaram melhora na locomoção após lesões medulares e efeito anti-inflamatório. Entre 2016 e 2021, um estudo piloto aplicou a substância em oito pacientes até três dias após o trauma na coluna. Dois morreram por causas não relacionadas ao tratamento; os demais apresentaram alguma recuperação motora.

Mais recentemente, em 2025, um estudo com seis cães paraplégicos com lesões crônicas também indicou melhora funcional. Os dados em humanos, porém, foram divulgados em formato de pré-print, ou seja, ainda não passaram pela revisão de outros cientistas, etapa essencial para validação científica. Os próprios autores reforçam que os resultados não devem orientar tratamentos.

Evidências ainda frágeis

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciências divulgaram nota conjunta ressaltando que, em áreas como neurodegeneração, o caminho entre descoberta e incorporação clínica é longo e depende de evidências acumuladas.

O pesquisador Leonardo Costa, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, destaca que o número de pacientes avaliados até agora é pequeno e que parte das melhoras observadas pode ocorrer naturalmente. Segundo ele, cerca de 30% dos casos de lesão medular apresentam algum grau de recuperação com o tratamento padrão, que inclui cirurgia, medicação e fisioterapia.

Sem grupo de controle (modelo em que parte dos voluntários recebe o tratamento experimental e outra parte segue o protocolo convencional) não é possível afirmar se a melhora foi causada pela polilaminina ou pela evolução clínica esperada.

“O hype é desproporcional ao volume de evidência”, avalia o pesquisador.

Próximos passos

Em janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início dos testes clínicos de fase 1, etapa que avalia a segurança do composto em humanos. Cinco voluntários que passarem por cirurgia na medula espinhal receberão uma dose experimental.

Caso seja considerada segura, a proteína seguirá para as fases 2 e 3, que envolvem centenas de pacientes e análise comparativa com grupo de controle. Só depois desses resultados o laboratório Cristália, parceiro da UFRJ na produção do composto, poderá solicitar o registro do medicamento. O processo pode levar de cinco a dez anos.

Até lá, a polilaminina não pode ser comercializada.

A pressão dos tribunais

Segundo a Anvisa, 56 pedidos de acesso compassivo foram levados ao Judiciário até 27 de fevereiro, e 33 pacientes já obtiveram autorização para receber a substância.

Especialistas alertam que a judicialização pode dificultar o andamento dos ensaios clínicos, já que pacientes podem preferir recorrer à Justiça a correr o risco de integrar o grupo de controle.

Para a presidente da SBPC, Francilene Procópio, o momento exige prudência. Ela cita precedentes como o uso da cloroquina durante a pandemia e a polêmica da fosfoetanolamina (a chamada “pílula do câncer”) como exemplos de como resultados preliminares podem gerar expectativas que não se confirmam em estudos mais robustos.

Entre a esperança legítima de quem busca recuperar movimentos e o rigor necessário da ciência, a polilaminina segue seu percurso. No laboratório, os testes continuam. Fora dele, cresce a ansiedade por respostas que ainda precisam de tempo para amadurecer.

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