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RECONHECIMENTO

Cacau de pequenos produtores paraenses ganha o mundo

chocolate feito a partir do cacau de pequenos produtores paraenses tem ganhado o mundo, inclusive com premiações nos melhores e mais exigentes concursos de qualidade

segunda-feira, 11/04/2022, 15:28 - Atualizado em 11/04/2022, 17:08 - Autor: Lais Azevedo

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Nos últimos anos, o Estado do Pará tem ganhado diversos prêmios de cacau e chocolate. O exemplo mais notável de um potencial sendo descoberto na região foi a conquista da Prata, na última edição do internacional “Cocoa of Excellence”, do Salão do Chocolate de Paris. E quem trouxe esta vitória foi João Evangelista “Rogério”, um maranhense nascido na comunidade de Gameleira, na cidade de Brejo. O produtor rural se mudou para São Félix do Xingu quando tinha apenas 17 anos e desde 2013 passou a morar no assentamento Tuerê, em Novo Repartimento, local que já vinha se destacando desde o ano anterior e já pode ser apontado como nova referência em cacau e chocolate.

“Todas as pessoas da minha família, no Maranhão, trabalhavam no campo. Mas no Pará sou proprietário de terra desde 1996; comecei a plantar no Xingu, mas com muita dificuldade. Quando fui para o Novo Repartimento, eu tinha um pouco de gado e de cacau. Tive mais oportunidade ali, menos problema de acesso a estrada e materiais. Em relação à terra, no Pará é muito fértil!”, comenta Rogério. Ele conta que recebeu também muito apoio técnico na região e segue contando com ele. “Preciso trabalhar junto a pessoas que saibam lidar com esse lado da venda, negociação, premiação, porque eu só sou bom com esse lado de produzir mesmo (risos), de tá na roça fazendo a amêndoa”, diz com bom humor.

Um dos principais aliados do produtor foi o programa “Territórios Inclusivos e Sustentáveis na Amazônia”, da Fundação Solidaridad, que desde 2015 apoia as famílias na região, ajudando a alavancar sua participação no mercado de chocolates bean-to-bar [trabalhados desde a produção da amêndoa até a barra de chocolate]. As amêndoas produzidas por cinco agricultores do Tuerê - incluindo Rogério - ocuparam o ranking das melhores do país em 2021, levando orgulho ao assentamento, lar de 3 mil famílias.

O produtor Francisco Cruz, por exemplo, celebrou o Ouro em 2021, no “Chocolate Alliance Awards”, realizado em Seattle (EUA), junto com a marca Monjolo Chocolate Bar, que produz com sua amêndoa. Além disso, a barra de chocolate 70%, da Priscyla França Chocolates, também produzida com as amêndoas de Cruz, foi eleita a melhor do Brasil, no “Prêmio CNA Brasil Artesanal 2021”. “Eu aprendi que não adianta você ter muita quantidade se você não tiver qualidade”, comentou. Pelo destaque de sua produção, em 2019 ele também foi um dos convidados a expor no Salão do Chocolate, na França.

Outro nome do assentamento Tuerê é João Rios, que ficou em terceiro lugar na categoria blend do “III Concurso Nacional de Qualidade de Cacau Especial do Brasil - Sustentabilidade e Qualidade”, em 2021, selecionado pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e Centro de Inovação do Cacau (CIC) - entre os oito melhores do Brasil. “É muito gratificante saber que conseguimos chegar a um padrão de qualidade e que estamos representando nossa região”, afirma Rios.

O concurso nacional analisou 94 amostras e as amêndoas cultivadas pelos produtores Valdemiro Broechl e Willian Paulo Broechl, também do assentamento Tuerê, estavam entre as 22 finalistas. O cacau de Valdemiro Broechl figurou ainda no ranking dos oito melhores do Brasil, do “Programa Cacau de Excelência”; e o chocolate “Two Rivers”, da Mission Chocolate, feito com suas amêndoas, recebeu Ouro no “Festival de Barras Bean-to-Bar 2021”, em Londres, na Inglaterra.

Futuro promissor

A bióloga Adriana Reis, doutora em biotecnologia e gerente de qualidade do CIC, além de ser uma das coordenadoras do Concurso Nacional de Qualidade de Cacau Especial do Brasil, aponta o Pará como uma nova potência no que se refere à amêndoa destinada à esse chocolate fino (bean-to-bar). “O Pará é hoje uma região que chama muito a atenção. Você vê o que ocorreu no concurso em 2021. Ganharam todas as categorias do blend”, diz ela, referindo-se aos produtores Robson Brogni (1º lugar) e Hélia Félix (2º lugar), de Medicilândia; José Renato Preuss, de Brasil Novo, e o já citado João Rios, do Tuerê, que empataram no 3º lugar.

“Tem elementos muito interessantes na região, como o fato de que, dentro do próprio Pará, ter diferença entre as regiões, cada uma com notas [sensoriais e gustativas] muito interessantes. A gente vai ouvir falar do Pará por muitos anos, porque realmente veio para ficar. Hoje, citaria a região do Tuerê, como uma região de destaque, porque empata na terceira categoria e chegou levando o ‘Cocoa of Excellence’ de Paris com o João Evangelista, que tem sua própria assinatura sensorial”, diz Adriana.

Mais tempo figurando nesse mercado, a cidade de Medicilândia também é destacada pela especialista. “É um pessoal que chamou muita atenção. A amostra do Robson e da Sara [parceira dele na produção], brilhou no concurso. Era uma amostra com uma complexidade grande, mas com boa nota de sabor cacau, que é o que a gente procura, e com cítricos que amarram tudo, agradando demais os jurados. E o Pará como um todo tem muitas notas de florais suaves, é um cacau mais adocicado, que naturalmente chama mais atenção. É uma região que de fato veio pra fazer história na área da qualidade. Tá bem competitivo”, acrescenta.

Há três anos, o Pará passou a Bahia na produção nacional de cacau e dos 205 mil hectares produzidos aqui, 10 mil são de agricultura familiar, com a maior parte da exportação saindo da região de Tomé-Açu para o Japão. “Uma linha de chocolate que utiliza as amêndoas exportadas para o Japão direto de Tomé-Açu exibiu o selo comemorativo das Olimpíadas de Tóquio. Isso foi um marco, pois mostrou o quanto as amêndoas de cacau do Pará são feitas com qualidade, já que se trata de um mercado bastante exigente”, comentou o secretário adjunto da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), Lucas Vieira.

No caso do cacau fino, enviam-se amostras a compradores que fazem vários testes físicos, químicos e principalmente sensoriais”, explica Fernando Mendes, que chefia o Centro de Pesquisa do Cacau do Pará e do Amazonas. O estado enviou ano passado amostras de 15 regiões para Darin Sukha, um dos maiores classificadores de cacau do mundo, e espera-se o lançamento do “Mapa Sensorial de Cacau do Pará” este ano, pensado como uma estratégia para firmar o Estado como referência mundial.

Além do sabor, a sustentabilidade

Importante destacar que, tanto no país como neste cenário internacional, os concursos e a busca por novos produtores não estão voltados apenas para a qualidade, mas também para a sustentabilidade. “Este tornou-se requisito fundamental. Não adianta você premiar um cara, chegar na fazenda dele e ter trabalho infantil, condições insalubres, uso excessivo de agrotóxico. Esse critério também é avaliado”, pontua o Diretor Científico do Centro de Inovação do Cacau (CIC) e Secretário Geral do Parque Científico e Tecnológico, Cristiano Villela Dias. “É dever de todo produtor gerar um produto que seja sanitário, limpo, de qualidade. A questão sensorial é um ‘plus’, o refinamento, de entender onde aquele cacau vai chegar para se transformar em um bom chocolate”, completa Adriana Reis.

João Evangelista “Rogério” se orgulha de nunca ter derrubado nem uma árvore para se tornar Prata na produção de cacau fino. “Quando se trata de floresta, eu procuro trabalhar de maneira sustentável, reaproveitando as áreas dela própria, sem a necessidade de desmatar. Eu trabalho há 18 anos com terra e cacau e nunca desmatei”, disse o produtor, com orgulho. Além do cacau, ele cultiva outras 32 espécies, como açaí, pupunheira e mogno – árvore que ele gosta de usar como maior exemplo de sistema agroflorestal que ele adotou. “Em cinco anos, eu plantei 300 pés. Essa espécie para mim é a que mais gosto de citar, pois representa o restauro da Amazônia, que é possível você trabalhar sem degradar”, ressalta o agricultor.

Mesmo no trato com o cacau e a crescente demanda do mercado por seu produto, ele diz que pretende manter tudo o mais tradicional possível e sem o uso de agrotóxicos. “Dentro do trabalho do cacau tem coisas que eu não confio em ninguém fazer, como é o caso da poda e do processo de fermentação, a escolha da fruta, eu mesmo que tenho que fazer. Comeu uma amêndoa minha, foi das minhas mãos mesmo (risos). A gente tem companheiros, mas o olho da gente é o que leva ao objetivo que a gente quer chegar. É uma propriedade pequena, mas é tudo que eu tenho e é tudo que eu gosto de fazer”.

Dos 45 hectares de Rogério, apenas oito são destinados ao cacau. “Eu nunca pensei na minha vida que podia chegar tão longe. Eu fiz três lotes de 600 Kg de cacau, esse que ganhou o paladar do povo de fora do Brasil. Isso é uma alegria. Eu doei tudo de mim pra fazer um bom trabalho e teve parceiros que colocaram no mercado. Continuar fazendo cacau fino, é isso que quero fazer! É uma festa em Paris quando se trata de cacau, do chocolate, uma coisa que a gente não sabe explicar. Muita gente queria me conhecer (risos). Uma pessoa no meu caso, um pequenininho bem pequeninho, dividir espaço com alguém como seu João Tavares [Ouro em Paris] foi muito emocionante”, relembra. 

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