Começar a treinar costuma representar uma mudança de rotina para quem quer cuidar da saúde. Mas, antes de aumentar a carga, correr longas distâncias ou partir para exercícios intensos, é importante saber se o corpo está preparado para aquele esforço.
Em Belém, uma lei municipal de 1999 estabelece regras para academias e inclui a exigência de atestado médico para a matrícula. Para a cardiologista Valéria Santos, porém, a avaliação não deve ser encarada apenas como uma formalidade.
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"A atividade física é uma das melhores ferramentas que temos para prevenir doenças cardiovasculares, mas isso não significa que todo mundo possa começar qualquer tipo de exercício, em qualquer intensidade, sem uma avaliação mínima", explica.

Estar sem sintomas não significa estar saudável
Um dos principais alertas da cardiologista é para quem acredita que nunca ter sentido nada é suficiente para começar qualquer atividade física. "Quando uma pessoa diz ‘eu sou saudável’, muitas vezes ela está dizendo apenas que não sente nada. E ausência de sintomas não é sinônimo de ausência de doença", afirma Valéria.
Segundo ela, existem condições cardiovasculares que podem permanecer silenciosas durante muito tempo. Hipertensão, alterações do ritmo cardíaco e alterações estruturais do coração são alguns exemplos.
Dependendo da idade e dos fatores de risco, a avaliação também pode identificar situações relacionadas à doença arterial coronariana. Por isso, a médica ressalta que o histórico de cada pessoa precisa ser levado em consideração.
"A avaliação médica antes de iniciar uma atividade física tem justamente esse papel: identificar fatores de risco, doenças previamente desconhecidas e, principalmente, entender qual é o nível de exercício adequado para aquela pessoa", diz.
A intenção, segundo Valéria, não é fazer com que as pessoas tenham medo de frequentar uma academia. Pelo contrário. "Não é para transformar a academia em um ambiente de medo. É o contrário. É para que a pessoa possa treinar com segurança e aproveitar todos os benefícios do exercício."

Atestado não é passe livre para treino pesado
Outro ponto que costuma gerar confusão é o significado do próprio atestado médico. Para a cardiologista, o documento não deve ser entendido como uma autorização para qualquer exercício ou intensidade.
"O atestado médico não deveria ser interpretado como um 'passe livre' para qualquer tipo de exercício ou qualquer intensidade", destaca.
A avaliação deve considerar fatores como idade, histórico familiar, pressão arterial, colesterol, diabetes, tabagismo, condicionamento físico e o tipo e intensidade do exercício que a pessoa pretende fazer.
Isso ganha importância principalmente quando alguém passa muito tempo sedentário e decide recuperar o tempo perdido de uma só vez. "O problema não é começar a se exercitar. O problema é sair do sedentarismo e, de uma hora para outra, exigir do coração um desempenho para o qual o organismo ainda não está preparado", explica.

Do sofá para os 10 quilômetros
A situação também aparece fora das academias. Há quem saia de uma rotina sedentária diretamente para corridas de 5 km, 10 km ou até distâncias maiores, acreditando que quanto maior o esforço, maior será o benefício.
Valéria explica que não funciona dessa maneira. "Para quem está sedentário, uma caminhada, por exemplo, pode ser um excelente começo. Não é necessário começar correndo 5 ou 10 quilômetros para obter benefício cardiovascular."
O condicionamento precisa ser construído aos poucos. "O coração, os músculos, as articulações e todo o sistema cardiovascular precisam de tempo para se adaptar", afirma.
Para a médica, o exercício deixa de ser apenas uma questão de força de vontade quando existe uma diferença muito grande entre a capacidade atual da pessoa e o esforço que ela está tentando realizar.

Dor no peito durante o treino é sinal de alerta
Também é preciso saber reconhecer quando o corpo está dando um sinal diferente do habitual. Dor ou pressão no peito, falta de ar desproporcional, tontura, desmaio, palpitações importantes ou uma queda acentuada da capacidade de exercício são situações que merecem avaliação.
"E eu sempre reforço uma coisa: não existe medalha por ignorar sintomas. Se o corpo está dando um sinal diferente do habitual, é preciso parar, avaliar e entender o que está acontecendo", alerta Valéria.
A preocupação é ainda maior quando esses sinais aparecem em uma pessoa com fatores de risco ou histórico familiar e que decidiu aumentar repentinamente a intensidade dos exercícios.
Médico e profissional de Educação Física têm papéis diferentes
A segurança durante o treino não depende apenas do atestado. Médico, profissional de Educação Física e o próprio aluno possuem responsabilidades diferentes e que precisam estar alinhadas.
"O papel do médico é avaliar a condição clínica e cardiovascular daquela pessoa, identificar riscos e, quando necessário, orientar sobre limitações, necessidade de exames complementares ou progressão do exercício", explica.
Já a academia e o profissional de Educação Física devem avaliar o condicionamento, orientar a execução dos exercícios e trabalhar a progressão da carga e da intensidade.
"É uma responsabilidade compartilhada. Médico, profissional de Educação Física e aluno precisam trabalhar juntos. O objetivo não é impedir o exercício, mas fazer com que ele seja seguro e sustentável", afirma.

Quando o cardiologista pode ajudar?
A avaliação cardiológica pode ser especialmente importante para quem pretende deixar o sedentarismo e aumentar bastante a intensidade do exercício. "O cardiologista tem um papel muito importante principalmente quando queremos entender até onde aquela pessoa pode chegar com segurança", diz Valéria.
A partir da avaliação, o médico pode orientar sobre a intensidade mais adequada e indicar, quando necessário, exames complementares. Entre eles estão o teste ergométrico e o teste cardiopulmonar de exercício, que podem ajudar a analisar a capacidade funcional e a resposta do coração ao esforço.
Mas a cardiologista reforça que isso não significa substituir o trabalho do profissional de Educação Física. "Cardiologista e profissional de Educação Física têm papéis diferentes e complementares. O médico avalia a saúde cardiovascular e os limites clínicos; o profissional de Educação Física transforma essas informações em um programa de treinamento adequado, trabalhando força, resistência, volume, carga e progressão."

O risco da morte súbita durante o exercício
A morte súbita durante a atividade física é um evento raro, mas pode acontecer inclusive com pessoas que aparentemente não apresentam problemas de saúde. As causas, explica Valéria, variam de acordo com a idade.
"Em pessoas mais jovens, algumas das principais causas estão relacionadas a doenças cardíacas estruturais ou elétricas que podem não ter provocado sintomas anteriormente", afirma.
Entre pessoas acima dos 35 ou 40 anos, dependendo do perfil de risco, a doença arterial coronariana ganha maior importância. Uma obstrução nas artérias pode permanecer silenciosa e, em determinadas situações, o esforço intenso pode desencadear uma arritmia grave.
Isso, porém, não significa que exercício seja perigoso. "Por isso, o exercício não deve ser visto como vilão. Muito pelo contrário: a prática regular de atividade física reduz de forma importante o risco cardiovascular e traz enormes benefícios para a saúde."
O cuidado está principalmente na combinação entre sedentarismo, fatores de risco e aumento repentino da intensidade. Nesses casos, a avaliação pode indicar quem precisa de uma investigação mais detalhada antes de avançar no treinamento.

Começar devagar também é cuidar do coração
Se pudesse mudar um único comportamento de quem começa a frequentar uma academia, Valéria Santos escolheria justamente a ideia de que resultado rápido exige treino pesado.
"Muita gente entra na academia querendo resultado rápido: aumenta carga, aumenta intensidade, tenta acompanhar quem já treina há muito tempo ou começa a correr distâncias para as quais ainda não está preparada”, observa.
A orientação da cardiologista é simples: "Eu diria: comece conhecendo o seu corpo."
Para ela, é preciso estabelecer uma meta possível e aumentar a intensidade progressivamente. "O exercício precisa fazer parte da sua vida, e não ser um desafio de poucos dias."
A médica resume a ideia em uma frase que vale para quem está começando e também para quem já treina: "O melhor treino não é necessariamente o mais pesado. É aquele que é adequado para você, que você consegue manter e que contribui para a sua saúde ao longo dos anos."
Como cardiologista, Valéria diz preferir uma pessoa que comece devagar, evolua com segurança e mantenha a atividade física por muitos anos a alguém que exagere no início, se machuque ou tenha algum problema e abandone o exercício.
"Exercício faz muito bem ao coração, mas exercício não é uma competição contra o próprio corpo", reforça.
A mensagem final, portanto, não é para ter medo da academia, da corrida ou de qualquer outra atividade física. É para entender que cuidar do coração também significa respeitar os limites do próprio corpo e dar tempo para ele evoluir.

Antes de aumentar a intensidade, vale observar:
- Histórico familiar: doenças cardíacas na família devem ser informadas durante a avaliação.
- Condição de saúde: pressão alta, diabetes e colesterol elevado podem aumentar os riscos.
- Condicionamento: quem está sedentário deve começar com intensidade compatível com sua condição.
- Sintomas: dor no peito, desmaio, tontura, falta de ar fora do habitual e palpitações importantes exigem atenção.
- Progressão: aumentar carga, velocidade e distância aos poucos ajuda o organismo a se adaptar.
A atividade física é uma aliada do coração. A questão não é treinar menos, mas entender como treinar melhor e com segurança.

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