Enquanto corta um cabelo, faz as unhas ou realiza um atendimento de rotina, muita gente acaba desempenhando uma função que não está descrita na profissão: a de ouvir. Entre uma conversa e outra, clientes compartilham alegrias, perdas, preocupações, sonhos e segredos que, muitas vezes, não conseguem contar nem para os familiares mais próximos.
Na cadeira do barbeiro, por exemplo, o assunto nem sempre é apenas aparência. Há cerca de oito anos na profissão, Antônio Laert, de 28 anos, mais conhecido como Baixada, atende clientes em seu ponto no bairro da Castanheira, em Belém, e conta que as conversas fazem parte da rotina. “Vida pessoal, profissional e futebol. Como meus clientes são homens que jogam bola, esse acaba sendo o assunto mais falado”, conta.
Segundo ele, os clientes novos costumam ser mais reservados, mas a barreira desaparece com o passar do tempo. “No começo eles ficam receosos de conversar, mas durante o corte vão ficando mais à vontade”, explica.
Com tantos anos de experiência, Baixada já ouviu histórias que marcaram sua trajetória. Entre elas, relatos sobre perdas familiares, conquistas pessoais e situações de dificuldade.
“Histórias de família me pegam muito. Perdas e conquistas são importantes para mim. Mas também me emocionam as crianças de famílias carentes que fazem de tudo para conseguir dinheiro só para cortar o cabelo comigo. Isso é muito gratificante”, relata.
A confiança construída ao longo dos atendimentos faz com que muitos clientes se sintam seguros para desabafar. “É gratificante demais. Isso ajuda no meu crescimento pessoal e profissional”, afirma.

Nas mesas dos salões de beleza, a realidade não é muito diferente. Manicure desde os 16 anos, Tatiane Farias diz que escuta diariamente relatos sobre família, casamento, amizades e desafios da vida. “Além da minha profissão, eu posso escutar e dar conselhos também”, afirma.
Para ela, muitas mulheres carregam sofrimentos silenciosos e apenas precisam encontrar alguém disposto a ouvir. “Existem muitas mulheres que passam por tantas coisas e sofrem caladas por medo de desabafar. Elas só precisam se sentir acolhidas, seja com palavras de força ou até mesmo com um abraço”, destaca.
Com o passar do tempo, a relação profissional muitas vezes evolui para uma amizade construída na confiança. “Acho que as pessoas desabafam porque já me conhecem como cliente e, aos poucos, vamos criando confiança e nos tornando amigas”, conta.

De acordo com a psicóloga e especialista em saúde mental, Carla Guerra, do ponto de vista psicológico, essa abertura acontece porque esses profissionais costumam oferecer algo muito valioso: presença, escuta e ausência de julgamento.
“Como a relação geralmente acontece fora do círculo familiar e social, muitas pessoas sentem menos medo de serem criticadas, mal interpretadas ou terem sua intimidade exposta”, explica.
A especialista destaca ainda que a confiança não depende necessariamente do tempo de convivência, mas da qualidade da interação.
“Quando alguém demonstra interesse na conversa, respeito, atenção e discrição, a outra pessoa tende a sentir segurança emocional. Pequenos gestos, como lembrar de conversas anteriores e ouvir sem interromper, fortalecem esse vínculo”, afirma.
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Segundo Carla Guerra, ser ouvido é uma necessidade humana fundamental. “Quando alguém encontra espaço para falar sobre o que está vivendo e percebe que é escutado com atenção, sem julgamentos, tende a sentir alívio emocional e redução da sensação de solidão”, explica.
Entre tesouras, esmaltes, espelhos e atendimentos rotineiros, profissionais de diferentes áreas acabam assumindo um papel inesperado: o de guardar histórias. Histórias de quem precisava apenas de alguns minutos de atenção para dividir o peso da vida e encontrar acolhimento em uma conversa simples do cotidiano.
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