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Dia dos Namorados: o que mantém um relacionamento além da paixão?

Psicóloga explica acerca dos limites da paixão, os perigos da dependência emocional e os caminhos para vínculos mais duradouros

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Imagem ilustrativa da notícia Dia dos Namorados: o que mantém um relacionamento além da paixão? camera A necessidade de afeto, acolhimento e pertencimento é parte natural da condição humana | (Foto: Freepik)

Quando duas pessoas se cruzam e se apaixonam é comum as juras de amor eterno e a sensação de que finalmente é a pessoa certa. Muitas julgam que aquele ser pode preencher o vazio e ausências sentidas, aliviar a solidão e dar sentido à existência.

É nesse momento que o outro deixa de ser apenas uma pessoa e passa a ocupar um lugar ainda maior: o de parecer reunir todas as qualidades desejadas e respostas às necessidades emocionais.

Apesar disso, é nesse momento que mora uma das maiores armadilhas dos relacionamentos.

De acordo com o psicanalista francês Jacques Lacan, a paixão está profundamente ligada ao processo de idealização. Nesse estado, tendemos a enxergar o outro não como ele realmente é, mas como gostaríamos que fosse, projetando nele nossos desejos, expectativas e fantasias. É justamente essa construção imaginária que faz com que a paixão muitas vezes desperte uma sensação de plenitude, como se a realização pessoal e a felicidade dependessem inteiramente daquela relação.

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Quando o amor se transforma em dependência

A necessidade de afeto, acolhimento e pertencimento é parte natural da condição humana. O problema surge quando a relação passa a concentrar todas as expectativas emocionais de uma pessoa, tornando o parceiro a única fonte de segurança, validação e felicidade.

Nessas situações, podem surgir comportamentos como ciúme excessivo, controle, possessividade e um medo constante de ser abandonado. Aos poucos, o relacionamento deixa de ser uma troca saudável entre duas pessoas e passa a funcionar como uma tentativa permanente de suprir carências e inseguranças emocionais.

Na prática clínica, é comum observar casos em que um dos parceiros abre mão de seus próprios desejos, amizades, interesses e projetos pessoais para corresponder às expectativas do outro. Com o tempo, essa dinâmica tende a gerar desgaste e sofrimento para ambos.

O amor saudável não exige a perda da individualidade. Pelo contrário: relações equilibradas combinam proximidade, afeto e companheirismo com o respeito ao espaço, à autonomia e à identidade de cada pessoa.

Quando a realidade rompe a fantasia

Muitas experiências de sofrimento amoroso têm origem no choque entre a idealização e a realidade. Enquanto a fantasia sustenta expectativas e desejos, a convivência inevitavelmente revela os limites e as diferenças presentes em qualquer relação.

Foi o que aconteceu com Rafael, um executivo de 65 anos que buscou acompanhamento psicológico durante um quadro depressivo. Casado há décadas, ele se envolveu em um novo relacionamento que despertou sentimentos de entusiasmo, vitalidade e renovação emocional.

Durante algum tempo, acreditou ser possível conciliar todos os seus desejos: preservar o casamento, viver a intensidade da nova paixão e manter o reconhecimento e a admiração de ambas as parceiras. No entanto, essa construção idealizada acabou se confrontando com a realidade. Enquanto ele buscava manter o controle da situação, a nova companheira desejava mais autonomia e independência. O desencontro de expectativas levou ao fim da relação e desencadeou um intenso sofrimento emocional.

Apesar da dor que costumam provocar, os rompimentos podem representar importantes oportunidades de autoconhecimento. Muitas vezes, eles expõem fragilidades, necessidades afetivas, expectativas irreais e idealizações que permaneciam invisíveis, permitindo uma compreensão mais profunda de si mesmo e da forma como se estabelecem os vínculos amorosos.

Existe um amor possível?

Para o psicanalista Donald Winnicott, a capacidade de construir vínculos afetivos saudáveis está diretamente relacionada às experiências emocionais vividas nos primeiros anos de vida. Quando uma pessoa cresce em um ambiente que oferece segurança e acolhimento, tende a desenvolver relações mais equilibradas, baseadas na confiança e não na dependência.

Isso não significa renunciar à paixão ou à intensidade dos sentimentos. Significa compreender que a paixão é apenas uma das fases do relacionamento, marcada por idealizações que, com o tempo, dão lugar a uma percepção mais realista do outro.

O amor amadurece quando somos capazes de enxergar a pessoa amada em sua totalidade, reconhecendo tanto suas qualidades quanto suas limitações. É nesse processo que aprendemos a acolher diferenças, respeitar individualidades e aceitar que ninguém será capaz de preencher todas as nossas necessidades emocionais.

Talvez o amor mais sólido seja justamente aquele que permanece depois que as fantasias se desfazem. Um vínculo sustentado pelo diálogo, pelo respeito mútuo, pelo afeto e pela liberdade. Um encontro entre duas pessoas completas, que escolhem caminhar juntas sem abrir mão de quem são.

Como escreveu Vinicius de Moraes, o amor talvez não precise ser eterno para ter valor. Mas pode ser profundamente verdadeiro e significativo enquanto durar.

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