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APOLÔNIO

Conheça o "Jesus Grego" que a história tentou apagar

Apolônio de Tiana viveu milagres parecidos com os de Jesus.

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Imagem ilustrativa da notícia Conheça o "Jesus Grego" que a história tentou apagar camera Segundo estudiosos, Apolônio provavelmente atuou como filósofo itinerante pelo Mediterrâneo. | Reprodução

Imagine um homem barbudo, de túnica simples, que curou doentes, ressuscitou mortos e reuniu seguidores fiéis há dois mil anos. E não, não se trata de Jesus de Nazaré, mas sim Apolônio de Tiana, figura do século 1º da Era Comum.

Apolônio de Tiana nasceu por volta do ano 15 em Tiana, cidade da antiga Capadócia, na região da atual Turquia. Ele morreu por volta do ano 100 em Éfeso, também na Turquia atual. Além disso, era filho de família abastada e estudou filosofia desde jovem. Ele seguiu uma corrente que renunciava aos prazeres, além de adotar disciplina moral severa e buscar o conhecimento como caminho espiritual. Por isso, recusava alimentos de origem animal e vestia apenas linho.

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Segundo a historiadora Semíramis Corsi Silva, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Apolônio provavelmente atuou como filósofo itinerante pelo Mediterrâneo.

Esse tipo de figura era comum naquela época, portanto não causa estranhamento que ele tenha visitado cidades como Atenas, Roma e Alexandria.

O livro que moldou uma imagem

O principal registro sobre Apolônio é a obra Vida de Apolônio de Tiana, escrita pelo grego Flávio Filóstrato entre 170 e 250 da Era Comum. Contudo, esse livro é do século 3º, ou seja, posterior à vida do personagem por cerca de dois séculos.

Por isso, os pesquisadores tratam seu conteúdo com cautela. A imperatriz romana Júlia Domna, da dinastia severiada, teria encomendado o texto a Filóstrato.

Além disso, a dinastia que governou Roma de 193 a 235 parece ter admirado Apolônio, o que explica o tom elogioso da obra.

O filósofo Aldo Dinucci, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), afirma que o livro é mais uma biografia romanceada do que um registro histórico preciso.

Filóstrato narrou viagens à Índia, à Etiópia e por todo o Mediterrâneo. Nessa narrativa, constam curas, previsões do futuro e a ressurreição de uma jovem.

Ademais, o texto descreve que Apolônio fez um voto de silêncio de cinco anos no início de sua missão filosófica.

O filósofo Gabriele Cornelli, professor da Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro Sábios, Filósofos, Profetas ou Magos?, explica que as biografias da época seguiam um padrão específico.

Nesse padrão, o personagem notável precisava ser extraordinário do começo ao fim da vida. Portanto, o acúmulo de feitos fantásticos era uma exigência literária, não necessariamente um relato fiel.

Existiu de verdade?

Apesar das dúvidas sobre a obra de Filóstrato, os historiadores concordam que Apolônio foi uma pessoa real. Isso se sustenta pelo método da múltipla atestação, que consiste em referências feitas por autores diferentes e sem relação entre si.

O historiador Daniel Brasil Justi, professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e da UFRJ, explica que essa carência de documentos contemporâneos é comum a figuras do período.

O historiador romano Dião Cássio, que viveu entre 155 e 229, mencionou Apolônio de forma sóbria e crítica. Isso reforça, portanto, que ele não foi uma invenção.

Além disso, circulavam na Antiguidade cartas atribuídas a Apolônio, o que indica que sua imagem como mestre filosófico já existia independente da biografia de Filóstrato.

A conclusão mais aceita hoje é que Apolônio foi real, mas sua vida foi progressivamente reinterpretada. Silva resume bem: ele é um personagem histórico cujos contornos misturam história e ficção de forma indissociável.

As semelhanças com Jesus

As coincidências entre as histórias de Jesus e de Apolônio são notáveis:

  • Ambos nasceram de forma extraordinária, com tradições de concepção virginal;
  • Ambos curaram doentes e ressuscitaram mortos;
  • Ambos reuniram seguidores com pregações itinerantes;
  • Ambos enfrentaram a hostilidade do poder romano;
  • Ambos foram associados, após a morte, a uma ascensão aos céus

Contudo, os pesquisadores rejeitam a ideia de que uma história copiou a outra. Para Silva, essas semelhanças refletem o repertório cultural comum do mundo mediterrâneo antigo.

Naquela época, era prática corrente atribuir feitos extraordinários a figuras consideradas homens divinos. Por isso, curas e ressurreições aparecem em várias tradições simultaneamente.

Cornelli reforça esse ponto: as narrativas combinavam sabedoria, ensinamento e poder divino do nascimento à morte.

Assim, tanto nas tradições gregas quanto nas judaicas e orientais, esse modelo era esperado para personagens de grande influência.

Contemporâneos que nunca se encontraram

Apolônio e Jesus provavelmente viveram no mesmo século, mas não há evidência de que souberam da existência um do outro.

O filósofo Dennys Garcia Xavier, professor da Universidade Federal de Uberlândia, explica que o Império Romano do século 1º era vasto demais para que dois filósofos itinerantes de regiões distintas se cruzassem necessariamente.

Jesus atuou na Galileia e na Judeia. Apolônio circulou pela Ásia Menor, Síria, Egito e Grécia.

Além disso, a obra de Filóstrato não faz referência alguma ao movimento cristão, assim como o Novo Testamento não menciona Apolônio. Foi apenas a partir do final do século 3º que os seguidores dos dois começaram a se confrontar.

O político romano Sosiano Hierócles escreveu uma obra na qual apresentou Apolônio como sábio comparável, ou até superior, a Jesus.

Em resposta, o bispo cristão Eusébio de Cesareia escreveu o tratado Contra Hierócles, em defesa da singularidade de Cristo.

Sábio ou feiticeiro?

Nem todos os autores antigos trataram Apolônio com admiração. Havia, também, uma tradição que o via como praticante de goécia, termo que designava encantamentos, feitiçaria e manipulação de forças ocultas.

Essa visão era claramente pejorativa. Entre os críticos mais conhecidos estão:

  • João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla entre 347 e 407, que o classificou como ligado à magia goética;
  • Cirilo de Alexandria, bispo entre 375 e 444, que o chamou de charlatão.

Justi aponta uma diferença linguística importante nesse debate. A tradição latina do cristianismo adotou a palavra milagre para os feitos de Jesus.

Já a tradição grega usou o termo taumaturgo para Apolônio, que significa o que faz maravilhas ou encantamentos.

Portanto, a distinção entre divino e mágico foi construída gradualmente, à medida que o cristianismo se consolidava e precisava se diferenciar de outras tradições.

O apagamento pelo poder

Com a ascensão do imperador Constantino no século 4º e sua conversão ao cristianismo, a memória de Apolônio sofreu um golpe definitivo.

Justi afirma que há evidências de que materiais ligados ao tianeu foram destruídos junto com outros elementos pagãos durante esse período. O filósofo Xavier oferece uma leitura mais ampla sobre o legado de Apolônio.

Para ele, Apolônio não foi um profeta apocalíptico como Jesus, tampouco fundou uma religião revelada. Antes, foi um representante tardio do ideal grego de que a filosofia é uma forma de vida.

Assim, seu legado pertence à história do pensamento, não à história das religiões.

Xavier conclui que Apolônio é testemunho de que o século 1º foi um período fértil em figuras carismáticas que buscavam reformar a vida moral e religiosa do mundo antigo.

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Chamar esse personagem de Jesus pagão, portanto, é ao mesmo tempo uma simplificação e um anacronismo que ignora toda a riqueza do mundo mediterrâneo antigo.

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