Um fóssil enigmático encontrado há mais de uma década na Etiópia reacendeu debates sobre a trajetória da evolução humana. O chamado “pé de Burtele”, datado de 3,4 milhões de anos, acaba de ser oficialmente atribuído à espécie Australopithecus deyiremeda, considerada parente próxima de Lucy, o famoso esqueleto de Australopithecus afarensis, com 3,2 milhões de anos.
A identificação foi anunciada por uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos e da Espanha em estudo publicado na revista Nature na quarta-feira (26/11). Os oito ossos do pé foram descobertos em 2009 no sítio arqueológico Woranso-Mille, mas só agora, 16 anos depois, o quebra-cabeça começou a se encaixar.
Busca de mais de uma década
Quando o fóssil foi encontrado, especialistas já suspeitavam que ele não pertencia à mesma espécie de Lucy. A ausência de dentes e mandíbula — peças-chave para identificar espécies — impediu uma conclusão definitiva. Mesmo assim, os cientistas mantiveram escavações no local por mais de dez anos. Foi então que novos fragmentos corporais, encontrados na região, permitiram associar o pé à espécie A. deyiremeda.
CONTEÚDOS RELACIONADOS:
- Entenda como foi a descoberta do "chiclete" pré-histórico!
- Mina Submersa há mais de 2 mil anos revela textos de Aristóteles
Parentes próximos, mas com anatomias distintas
As diferenças anatômicas entre as duas espécies ajudam a entender como nossos ancestrais caminhavam. Enquanto Lucy tinha um dedão alinhado aos demais, favorecendo a locomoção bípede semelhante à humana, o pé de Burtele exibia um dedo maior mais afastado, semelhante a um polegar, que facilitava subir em árvores e agarrar galhos.
Segundo o pesquisador Yohannes Haile-Selassie, da Universidade Estadual do Arizona, o achado amplia a compreensão sobre o bipedalismo. “Havia muitas maneiras de andar sobre duas pernas no chão”, afirmou em entrevista ao portal Live Science.
As análises dentárias também revelaram modos de vida distintos: A. deyiremeda consumia principalmente alimentos de árvores e arbustos, enquanto Lucy tinha dieta mais variada, incluindo gramíneas tropicais.
Debate científico permanece aberto
Mesmo com as descobertas, o estudo não foi unanimidade. Parte da comunidade científica argumenta que as evidências são insuficientes, pois os fragmentos usados para identificar a espécie foram encontrados apenas nas proximidades do sítio original, e poderiam ter sido deslocados ao longo do tempo.
Quer mais notícias de curiosidades? Acesse nosso canal no WhatsApp
Outros especialistas defendem a solidez da pesquisa e destacam seu valor para a compreensão do comportamento e da evolução dos primeiros hominíneos. Novos estudos devem ajudar a validar, ou contestar, a associação do pé misterioso ao A. deyiremeda.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar