A ideia de engravidar enquanto já está grávida parece impossível, mas, em situações extremamente raras, isso pode acontecer. O fenômeno é chamado superfetação e ocorre quando uma nova ovulação acontece depois que a primeira gestação já foi iniciada, seguida da fecundação e implantação de um segundo embrião.
Segundo o ginecologista e obstetra Hamilton Franco, para que isso aconteça é necessário que mecanismos naturais que normalmente impedem uma nova concepção durante a gravidez falhem excepcionalmente.
Durante uma gestação normal, as alterações hormonais do organismo impedem que um novo ciclo ovulatório aconteça. Além disso, outras mudanças dificultam a chegada dos espermatozoides ao útero e uma nova implantação.
“A superfetação é a concepção de um segundo embrião quando já existe uma gestação em andamento. É extremamente rara porque, durante a gravidez, as alterações hormonais normalmente bloqueiam novas ovulações. Além disso, ocorrem mudanças no colo do útero e no próprio ambiente uterino que dificultam tanto a passagem dos espermatozoides quanto uma nova implantação”, explica Hamilton.

Como uma nova gravidez pode acontecer?
Para o médico, os casos atribuídos à superfetação envolveriam uma sequência de acontecimentos pouco prováveis. Mesmo com uma gestação em andamento, poderia ocorrer uma falha excepcional no bloqueio hormonal responsável por impedir uma nova ovulação.
“Em uma gestação normal, os níveis hormonais impedem que um novo ciclo ovulatório aconteça. Nos raríssimos casos atribuídos à superfetação, acredita-se que possa ocorrer uma falha excepcional nesse bloqueio hormonal, permitindo a liberação de outro óvulo. Depois, ainda seria necessário que houvesse fecundação e que o novo embrião conseguisse se implantar no útero. É justamente essa sequência de acontecimentos improváveis que torna o fenômeno tão incomum”, afirma.
Como saber se são dois bebês concebidos em momentos diferentes?
Identificar uma superfetação não é simples. Uma diferença de tamanho entre dois fetos, por exemplo, não é suficiente para confirmar que as concepções ocorreram em períodos diferentes. Isso porque diferenças de crescimento também podem aparecer em gestações gemelares comuns.
“A suspeita pode surgir quando exames realizados desde muito cedo mostram uma diferença consistente no estágio de desenvolvimento dos embriões, incompatível com uma concepção simultânea. É necessário avaliar a sequência dos ultrassons, a idade gestacional estimada e excluir outras explicações para a diferença de crescimento”, explica o ginecologista.

São considerados gêmeos?
Embora tenham sido concebidos em momentos diferentes, os dois bebês compartilham a mesma gestação e, na prática, podem ser tratados como uma gestação múltipla. A diferença está justamente no intervalo entre as possíveis concepções.
“Eles compartilham a mesma gestação e, na prática, podem ser tratados como uma gestação múltipla. Entretanto, diferentemente dos gêmeos convencionais, que resultam de fecundações ocorridas no mesmo período, na superfetação as concepções teriam acontecido em momentos diferentes. Essa diferença é justamente a característica excepcional desse fenômeno”, esclarece Hamilton.
Os bebês nascem no mesmo dia?
Mesmo que tenham sido concebidos em semanas diferentes, a tendência é que os dois nasçam no mesmo parto. Isso acontece porque a decisão sobre o momento do nascimento leva em consideração as condições dos dois fetos e da mãe.
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“O obstetra precisa equilibrar a maturidade do bebê concebido mais tarde com as condições do bebê mais desenvolvido e da própria mãe. A decisão sobre quando e como realizar o parto é individualizada e considera crescimento fetal, vitalidade, idade gestacional e possíveis complicações”, explica.
Assim, a diferença entre as datas de concepção não significa necessariamente que os bebês terão nascimentos separados.
Há riscos para a mãe e para os bebês?
Por se tratar de uma situação excepcional, uma das principais preocupações está relacionada justamente à diferença de maturidade entre os fetos. Além disso, há os riscos já conhecidos de uma gestação múltipla, como a possibilidade de parto prematuro.
“A principal preocupação está relacionada à diferença de maturidade entre os fetos e aos riscos próprios de uma gestação múltipla, como prematuridade. Se o parto precisar acontecer por uma indicação relacionada ao bebê mais desenvolvido ou à saúde materna, o bebê concebido posteriormente pode estar em uma fase menos avançada de desenvolvimento. Por isso, o acompanhamento precisa ser bastante cuidadoso”, alerta o médico.

Como é feito o acompanhamento?
Uma gestação com suspeita de superfetação precisa ser acompanhada de maneira individualizada. O objetivo é observar de perto o crescimento, o desenvolvimento e as condições de saúde de cada bebê.
“É uma gestação que exige acompanhamento obstétrico individualizado e, em geral, mais próximo. Ultrassonografias seriadas ajudam a acompanhar o crescimento e o desenvolvimento de cada bebê. Dependendo do caso, pode ser necessário o acompanhamento conjunto com especialista em medicina fetal ou gestação de alto risco. A frequência das consultas e dos exames é definida conforme a evolução da gravidez”, detalha Hamilton.

Tratamentos de fertilidade podem estar relacionados?
Alguns casos descritos na literatura foram associados a tratamentos de reprodução assistida ou à estimulação ovariana. No entanto, o médico ressalta que isso não significa que esses tratamentos normalmente provoquem superfetação.
“Alguns dos casos descritos na literatura foram associados a tratamentos de reprodução assistida ou estimulação ovariana, mas isso não significa que esses tratamentos normalmente provoquem superfetação. O fenômeno continua sendo excepcional”, afirma.
De acordo com o ginecologista, quando existe histórico de medicamentos que interferem na ovulação ou de procedimentos de reprodução assistida, essas informações também são importantes para que a equipe médica consiga interpretar corretamente a cronologia da gestação.
Apesar de chamar atenção pela possibilidade de uma nova gravidez durante uma gestação já existente, a superfetação continua sendo um fenômeno excepcional. Por isso, diferenças entre os fetos ou entre os estágios de desenvolvimento precisam ser avaliadas por profissionais de saúde antes de qualquer conclusão.
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