A obesidade entre jovens deixou de ser uma preocupação para o futuro e já representa um dos maiores desafios da saúde pública mundial. Segundo o World Obesity Atlas 2026, a prevalência da condição entre crianças e adolescentes passou de 4% em 1975 para quase 20% em 2022. Se nada mudar, a projeção é que cerca de 228 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos convivam com a obesidade até 2040.
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O avanço da doença preocupa especialistas porque o excesso de peso na infância e na adolescência pode desencadear uma série de problemas de saúde ainda na juventude e aumentar significativamente o risco de doenças crônicas na vida adulta.
Para o nutricionista da Hapvida, Wallyson Souza, a mudança no padrão alimentar das famílias é um dos principais fatores por trás desse cenário.
“Nas últimas décadas, observamos um aumento significativo no consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gorduras e sódio, em substituição às refeições preparadas em casa. Além disso, bebidas açucaradas, fast-food, salgadinhos e doces passaram a fazer parte da rotina de muitas famílias”, explica.

Segundo ele, a alimentação inadequada se soma a outro problema crescente: o sedentarismo. “Esse cenário, aliado à redução da prática de atividades físicas e ao maior tempo em frente às telas, contribuiu diretamente para o aumento da obesidade infantil e na adolescência.”
Hábitos que favorecem o ganho de peso
Na rotina de muitas famílias, alguns comportamentos acabam favorecendo o desenvolvimento da obesidade sem que isso seja percebido imediatamente.
De acordo com Wallyson Souza, entre os erros mais frequentes estão o consumo excessivo de refrigerantes e bebidas açucaradas, alimentos ultraprocessados, baixa ingestão de frutas, verduras e legumes, além do hábito de pular refeições, especialmente o café da manhã.
Outro comportamento bastante comum também merece atenção. “Comer em frente à televisão ou ao celular dificulta a percepção da saciedade e favorece o consumo exagerado de alimentos”, destaca.
Muito além da alimentação
A endocrinologista Fernanda Máximo, pós-graduada em endocrinologia, explica que a obesidade é resultado de diversos fatores que atuam ao mesmo tempo.
“Vários fatores estão acontecendo juntos. As crianças estão comendo mais alimentos industrializados e bebidas açucaradas e menos comida de verdade. Ao mesmo tempo, elas se movem menos, passam mais tempo na tela, dormem pior e vivem sob mais estresse do que antes.”

Ela também chama atenção para a realidade enfrentada por muitas famílias. “Quando o dinheiro é curto ou o tempo é curto, é mais difícil cozinhar todos os dias e garantir uma rotina saudável.”
Apesar do cenário preocupante, a especialista reforça que pequenas mudanças já produzem resultados importantes. “A boa notícia é que pequenas mudanças feitas em família fazem muita diferença. Oferecer mais comida de verdade, limitar o tempo de tela, incentivar brincadeiras, cuidar do sono e dar o exemplo à mesa ajudam na construção de hábitos saudáveis.”
Obesidade é uma doença
Ainda existe o entendimento equivocado de que a obesidade acontece apenas por falta de disciplina ou força de vontade. No entanto, Fernanda Máximo reforça que essa visão precisa ser superada.
“A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma doença, e não um sinal de fraqueza ou desleixo.”
Segundo a médica, diversos fatores influenciam o ganho de peso, incluindo alterações hormonais, predisposição genética e o ambiente em que a criança vive.
“Cobrar força de vontade da criança ou da família não resolve o problema. Tratar a obesidade não é apenas ‘fechar a boca’, mas cuidar de um organismo que está inflamado e que precisa de acompanhamento médico, psicológico e nutricicional.”
Riscos para a saúde
Os impactos da obesidade vão muito além da estética. Fernanda Máximo explica que crianças e adolescentes com excesso de peso apresentam maior risco de desenvolver diabetes, hipertensão, colesterol elevado, gordura no fígado, apneia do sono e dores nas articulações.
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“Mas não é só o corpo que sofre. A autoestima, a ansiedade e o isolamento social também entram na conta. Além disso, crianças com obesidade têm maior chance de continuar com o problema quando adultas.”
O papel da família
Para os especialistas, o combate à obesidade começa dentro de casa. Em vez de impor dietas restritivas, Wallyson Souza recomenda que toda a família adote hábitos mais saudáveis.
“O exemplo dos pais é uma das ferramentas mais importantes. O ideal é promover uma alimentação equilibrada para todos, oferecer refeições variadas, estimular alimentos naturais e envolver as crianças no preparo dos alimentos.”
Ele também orienta que os responsáveis incentivem atividades físicas e evitem utilizar alimentos como recompensa ou punição.
Pequenas mudanças fazem diferença
Entre as medidas que podem ajudar na prevenção da obesidade estão manter horários regulares para as refeições, aumentar o consumo de frutas, verduras e legumes, trocar refrigerantes por água, reduzir alimentos ultraprocessados e estimular refeições em família.
Também é importante limitar o tempo de telas, incentivar brincadeiras ao ar livre e estabelecer uma rotina adequada de sono.
Para Fernanda Máximo, o enfrentamento da obesidade depende de uma ação conjunta entre famílias, escolas e poder público.
“Nas escolas, educação alimentar e opções mais saudáveis na cantina fazem diferença. Já o poder público pode ampliar espaços para atividade física e regular a publicidade de alimentos ultraprocessados voltada às crianças.”
A médica conclui lembrando que prevenir a obesidade é um compromisso coletivo. “Proteger nossos filhos da obesidade é o maior ato de amor, cuidado e saúde que podemos entregar para o futuro deles.”
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