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DR. ROGER NORMANDO

Crônica: O Paradoxo do Essencial: Daraxon, fiat lux contra o câncer

Confira mais uma crônica do Dr. Roger Normando, cirurgião e professor da UFPA

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Imagem ilustrativa da notícia Crônica: O Paradoxo do Essencial: Daraxon, fiat lux contra o câncer camera ( Reprodução freepik )

Durante a COP30, realizada na beirada da floresta amazônica, uma das discussões mais inflamadas foi a representatividade da Amazônia para o planeta. Apenas 1,3% da superfície total do globo ou 7% da área de terras, sabendo-se que a importância ecológica é inquestionável: 50% da biodiversidade mundial e 20% de toda água doce do planeta. É muita função para pouco mais de 1% da terra.

Outro paradoxo é o pâncreas. Tem menos de 0,1% do peso em relação à massa total do corpo humano e mede entre 15 e 25 cm de comprimento e pesa em média de 60 a 100 gramas. Cabe na palma da mão e é capaz de determinar o destino de uma vida inteira e causar o maior nó na medicina. Pequeno em tamanho e gigantesco em importância, o pâncreas guarda dentre tantas intempéries, uma genética desafiante, ou melhor, uma arma de grosso calibre: o gene K-RAS. Seu gatilho pode disparar um dos cânceres mais nocivos ao homem.

O câncer de pâncreas figura entre os diagnósticos mais temidos da medicina, por ser silencioso, agressivo e associado a algumas das menores taxas de sobrevida em oncologia. Médicos sentem-se impotentes diante desta neoplasia. Mais parece um OVNI bombardeando a terra.

Mas aí a ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica) lança um fleet paralisante de Chicago para chamar atenção do mundo científico: o Daraxonrasib cujos novos resultados controlam a doença, duplicando a sobrevida em casos avançados. Um comprimido capaz de detonar o carrasco gene K-RAS. Não faltaram aplausos após o anúncio do resultado da pesquisa. Não são aplausos protocolares, nem entusiasmo de ocasião, tampouco gritos frenéticos de “wohoo”. Fosse um concerto, equivaleria ao uníssono “Bravo, Bravo!”, com todos de pé. Talvez por isso aquelas palmas tão impactantes ecoaram por todo o planeta, não só pelas redes sociais, mas em manchetes nos principais tablóides. Havia ali a percepção de que algo importante estava acontecendo. Foi uma comichão na oncologia, após décadas em que essa neoplasia simbolizou, e ainda representa dos maiores desafios da medicina. Os resultados da pesquisa foram capazes de alterar perspectivas que pareciam consolidadas até então.

Podemos assim dizer que o K-RAS achou quem o desligasse da tomada, cujo nome é até difícil de pronunciar: Daraxonrasib, que vai acabar reduzido a Daraxon, ou Dara, no meio oncológico. Mesmo sem representar a cura é fiat lux na escuridão da oncologia; é esperança, é ciência, não é milagre, diga-se.

Para quem não é da área médica, vale contextualizar: o congresso da ASCO é o principal encontro mundial de oncologia. É ali que costumam apresentar os avanços mais relevantes no diagnóstico e tratamento do câncer. Não costuma ser um ambiente conhecido por euforia. Cientistas são treinados para desconfiar dos próprios resultados, questionarem conclusões de outros e celebrar com prudência cada alcance. Entre nós, Clarissa Baldotto, membro do GBOT (Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica), que se dedica ao câncer de pulmão, estava radiante: “é pensar que possa ter perspectivas para outros tumores que tenham o mesmo tipo de mutação”. O outro, no caso, é o câncer de pulmão.

Mesmo que seja um pequeno passo para a medicina, foi o ganho de esperança que floresceu no pequeno pâncreas, desafiando a lógica das proporções.

Talvez a natureza esteja o tempo todo tentando nos ensinar que grandeza não se mede em hectares, centímetros ou gramas, mede-se em impacto... em palmas – e o pâncreas cabe na palma da mão.

Sim, precisamos de mais COP, assim como de mais ASCO. Afinal, o futuro costuma começar em lugares que poucos percebem, mas que sustentam o equilíbrio... Porque toda vez que a ciência faz-se em luz, a humanidade inteira enxerga um pouco mais além.

Jader Leite - Doutor em engenharia hidráulica e ambiental, Universidade de São Paulo (USP)

Por Roger Normando
O autor é professor de cirurgia torácica da Universidade Federal do Pará e membro titulado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.

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