A fé que move milhões de pessoas todos os anos durante o Círio de Nazaré ganha novas formas de expressão e memória na Casa de Cultura É Círio Outra Vez, em Belém. Com uma programação especial durante o mês de junho, o espaço reúne exposições, oficinas, experiências imersivas, atividades educativas e apresentações culturais que convidam o público a mergulhar nas histórias, tradições e manifestações que ajudam a construir uma das maiores celebrações religiosas do mundo.
A iniciativa tem como tema as narrativas de fé do povo paraense e busca mostrar como relatos, saberes populares, memórias afetivas e manifestações artísticas mantêm viva a devoção a Nossa Senhora de Nazaré ao longo de todo o ano. A programação desta semana reuniu a exposição fotográfica “Narrativas de Fé do Círio de Nazaré”, experiências de realidade virtual com miritiboard, espaços de leitura, exposições temáticas e a visita de estudantes do Instituto Felipe Smaldone.
Para a coordenadora-geral da Casa de Cultura É Círio Outra Vez, Socorro Fernandes, o espaço foi criado para preservar a memória do Círio e fortalecer a identidade cultural do Pará.
“A casa foi pensada como uma forma de acolhimento para o povo do Pará, sejam católicos ou não, e para resgatar a memória e a história de tudo o que envolve o Círio de Nazaré. O Círio é uma manifestação religiosa, mas também cultural. Aqui mostramos a gastronomia, a arte, a cultura e tudo o que faz parte dessa experiência. As pessoas precisam entender que o Círio não acontece apenas em outubro. Ele está presente durante todo o ano na vida dos paraenses”, destacou.

Além de preservar a memória da festividade, o espaço também busca aproximar o público das diferentes manifestações culturais amazônicas. Segundo a construtora artística da casa e doutoranda em Arte, Rosiane Oliveira, a programação de junho valoriza as oralidades e narrativas amazônidas associadas aos atos de fé.
“A Casa É Círio Outra Vez foi pensada como um espaço de cultura e fé, uma fé que ultrapassa fronteiras. Trouxemos para a casa esse ato de exaltar a cultura paraense através do Círio de Nazaré. Neste mês, trabalhamos especialmente as narrativas e oralidades amazônicas relacionadas às manifestações de fé presentes nas procissões”, explicou.

Sustentabilidade e arte como ferramentas de transformação
Entre as atividades oferecidas ao público, uma das que mais chamou atenção foi a oficina ministrada pela artesã Helena Bezerra. Utilizando materiais recicláveis, sementes e sobras de linhas, a artista ensinou técnicas para a produção de biojoias, acessórios e peças artesanais sustentáveis.
“A gente trabalha com reaproveitamento de materiais. O que seria descartado ganha uma nova função. Fazemos flores de crochê, terços, bolsas, acessórios e até peças para animais de estimação. Hoje também mostramos aos alunos como transformar sementes em brincos e pulseiras, valorizando a criatividade e o cuidado com o meio ambiente”, contou.

Inclusão e acessibilidade como prioridade
Um dos momentos mais marcantes da programação foi a visita dos alunos do Instituto Felipe Smaldone, referência no atendimento a pessoas surdas. Para a professora de Arte Lourdes Maria, a experiência permitiu que os estudantes se reconhecessem dentro da própria cultura.


“É a cultura deles. Muitos alunos identificaram elementos que já conheciam e vivenciaram. Isso fortalece a identidade cultural. Mas o grande diferencial é a acessibilidade. O surdo percebe o mundo visualmente, mas ele também precisa da informação em sua própria língua. Aqui eles tiveram acesso ao conteúdo por meio da Libras, o que tornou a experiência muito mais significativa”, afirmou.
A preocupação com a inclusão faz parte da proposta do espaço. Segundo Socorro Fernandes, a equipe recebe capacitação constante para garantir acolhimento e acessibilidade aos visitantes.
“Quando falamos da casa, a palavra que mais ouvimos é acolhimento. Temos intérpretes, apoio educacional e uma equipe preparada para receber diferentes públicos. Hoje conseguimos trazer a comunidade surda para dentro desse espaço e proporcionar uma experiência de integração, respeito e pertencimento”, ressaltou.
Experiências que encantam
Para os estudantes, a visita foi marcada por descobertas e novas experiências. O aluno Matheus Willian, de 12 anos, se encantou com a atividade de realidade virtual.
“Eu amei os óculos virtual. Foi muito legal ver a floresta, o rio, a canoa e os animais. Parecia que a gente estava dentro da história”, contou.
Já as alunas Samilly Oliveira, de 14 anos, e Ana Carolina Monteiro destacaram os espaços de leitura, as biojoias produzidas durante a oficina e os trabalhos em crochê como as atrações preferidas da visita.

Cultura viva durante todo o ano
Com programação gratuita até o dia 12 de junho, a Casa de Cultura É Círio Outra Vez reforça sua missão de preservar a memória do Círio de Nazaré e ampliar o acesso à cultura amazônica por meio da arte, da educação e da inclusão.
Mais do que um espaço expositivo, a casa se consolida como um ambiente de encontro entre diferentes gerações, tradições e formas de expressão, mostrando que a devoção e a cultura que cercam o Círio permanecem vivas muito além das procissões de outubro.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar