A morte de uma criança durante uma ação policial e a demora para que o caso seja julgado voltaram ao centro do debate político brasileiro. O caso Ana Clara ganhou repercussão nacional após o senador Flávio Bolsonaro (PL) ser questionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre sua atuação na defesa do policial militar acusado de matar a menina de cinco anos.
Ana Clara Gomes Machado morreu em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Ela brincava na porta de casa com o irmão, de dois anos, quando foi atingida por um disparo de fuzil durante uma ação policial.
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Policial militar efetuou disparos em área residencial
De acordo com a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), o tiro que matou Ana Clara partiu da arma do então cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli. A acusação aponta que o policial efetuou disparos em uma área residencial, assumindo o risco de atingir moradores.
A defesa do policial sustentou que os agentes reagiram a um confronto com criminosos armados. A investigação, entretanto, contestou essa versão. Informações divulgadas pela imprensa apontaram que a perícia encontrou vestígios de munição calibre 7,62, compatível com o fuzil utilizado pelo militar, mas não identificou cápsulas de pistola que confirmassem a alegada troca de tiros.
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Delaroli foi preso em flagrante após a morte da menina, mas passou a responder ao processo em liberdade em novembro de 2021, sob medidas cautelares. A Justiça determinou que o policial fosse levado a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Flávio Bolsonaro integrou defesa do policial
O senador Flávio Bolsonaro, que também é advogado, passou a integrar a equipe de defesa de Bruno Dias Delaroli em 2024. Naquele ano, assinou um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou o julgamento do policial pelo Tribunal do Júri.
O pedido foi rejeitado, e a determinação para que o acusado fosse julgado pelos jurados foi mantida.
A atuação de Flávio voltou a ser discutida durante o debate presidencial entre o senador e Lula na Band, realizado no último domingo (18/10).
Lula questionou atuação do senador
Durante o debate transmitido pela Band, Lula questionou Flávio sobre sua participação na defesa do policial acusado pela morte de Ana Clara.
"Você era senador da República e foi interferir para que o policial que matou uma criança de 5 anos com uma bala de fuzil não fosse preso. Me explica por que você fez isso?", perguntou o presidente.
Flávio respondeu que a atuação estava relacionada ao exercício da advocacia. "Você não pode criminalizar a advocacia, Lula. Nem teve julgamento, você já condenou o cara", afirmou o senador.
A troca de acusações ampliou a repercussão do caso nas redes sociais e colocou novamente em evidência a demora no andamento do processo.
Mãe de Ana Clara cobra julgamento
Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, cobra o avanço do processo e a realização do julgamento do policial. Em declaração reproduzida pelo Brasil de Fato, ela falou sobre os anos de espera por uma resposta judicial.
"Estou pedindo para que ele [policial] seja julgado. Não é só mais uma criança, eu não sou só mais uma mãe que chora. São 5 anos que levo isso comigo e eu não tenho resposta", declarou.
A mãe também criticou a atuação de Flávio Bolsonaro na tentativa de reverter a decisão que encaminhou o caso ao Tribunal do Júri e afirmou que não recebeu contato da equipe do senador.
O julgamento, inicialmente previsto para a última quarta-feira (21/10), foi adiado. A nova data foi marcada para 5 de maio de 2027.
TSE determina suspensão de impulsionamento de publicações
Em 21 de outubro de 2026, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a Meta suspendesse o impulsionamento pago de publicações da campanha de Lula que relacionavam Flávio Bolsonaro ao caso Ana Clara.
A decisão considerou que o material tinha caráter predominantemente negativo e era direcionado à crítica do adversário político. O ministro não julgou, naquele momento, a veracidade das afirmações nem a participação de Flávio nos fatos mencionados.
Enquanto aguarda a realização do julgamento, o caso continua a mobilizar a família de Ana Clara e a repercutir no debate político nacional.
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