A tradicional corrida dos torcedores em busca das figurinhas da Copa do Mundo ganhou um adversário inesperado. Enquanto milhares de brasileiros tentam completar seus álbuns, criminosos têm aproveitado o entusiasmo dos colecionadores para aplicar golpes que vão desde a venda de produtos falsificados até a criação de sites fraudulentos que simulam canais oficiais de comercialização.
O avanço das fraudes já se reflete nos números dos órgãos de defesa do consumidor. Dados do Procon-SP mostram que as reclamações relacionadas às figurinhas da Copa cresceram 1.532% entre abril e maio. Após não registrar ocorrências em março, o órgão contabilizou 34 reclamações em abril e impressionantes 512 em maio.
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SITES FALSOS LIDERAM ARMADILHAS VIRTUAIS
Segundo o Procon-SP, uma das principais queixas dos consumidores é a não entrega das figurinhas compradas pela internet. Em muitos casos, as vítimas realizam pagamentos e jamais recebem os produtos adquiridos.
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O problema ganhou proporções ainda maiores com a proliferação de páginas fraudulentas. Levantamento da empresa de segurança digital Kaspersky identificou ao menos 164 sites falsos que imitavam plataformas oficiais de venda de figurinhas até meados de maio. O número representa um salto de 720% em comparação ao fim de abril, quando haviam sido detectadas apenas 20 páginas suspeitas.
Além do prejuízo financeiro, esses golpes podem resultar no roubo de informações pessoais e bancárias dos consumidores.
COMO OS GOLPISTAS ATRAEM VÍTIMAS
Especialistas alertam que ofertas com preços muito abaixo dos praticados no mercado costumam ser o primeiro sinal de fraude. Outra característica comum é a existência de lojas virtuais recém-criadas, com poucas informações institucionais e formas limitadas de pagamento, geralmente aceitando apenas PIX, depósitos ou transferências para pessoas físicas.
A recomendação é verificar a reputação do vendedor, pesquisar reclamações em plataformas especializadas e conferir a existência de CNPJ, endereço físico e canais de atendimento ao consumidor.
O Procon-SP também orienta que as compras sejam realizadas apenas por canais oficiais. Em marketplaces, o ideal é manter toda a negociação e pagamento dentro da própria plataforma para garantir mecanismos de proteção e eventual reembolso.
QUANDO A COLEÇÃO SE TRANSFORMA EM DOR DE CABEÇA

As fraudes não se restringem aos golpes virtuais. Muitos consumidores relataram ter recebido figurinhas falsificadas. Uma colecionadora que investiu mais de R$ 350 no álbum percebeu diferenças evidentes entre algumas figurinhas. Segundo ela, as imagens apresentavam alterações de cor e tamanho, tornando-se visivelmente diferentes após serem coladas no álbum.
Mesmo após reclamar no estabelecimento onde efetuou a compra, a consumidora afirma que não recebeu assistência. Ao pesquisar características de falsificações, concluiu que as figurinhas apresentavam todos os indícios de produtos adulterados. Outra compradora identificou irregularidades no acabamento das figurinhas, observando cortes fora do padrão utilizado nos produtos originais.
Já a cabeleireira Caroline encontrou um problema ainda mais evidente. De acordo com seu relato, os pacotes continham apenas figurinhas repetidas e apresentavam sinais claros de falsificação. Segundo ela, as embalagens pareciam montadas artesanalmente, com uso de cola e cartolina, além de rebarbas visíveis e impressões manchadas.
NEM SEMPRE O PROBLEMA É FALSIFICAÇÃO
O engenheiro Vinicius Oliveira enfrentou uma situação diferente. Após adquirir um álbum e centenas de figurinhas, começou a colar sua coleção normalmente até perceber um erro de fabricação. Ao chegar às páginas dedicadas à seleção de Senegal, constatou que quase 20 páginas estavam impressas de cabeça para baixo. O problema surgiu depois de aproximadamente 450 figurinhas já terem sido coladas.
Vinicius enviou o álbum defeituoso para análise da empresa responsável, mas afirma que segue aguardando uma solução definitiva, situação que acabou reduzindo seu entusiasmo pela coleção.
COMO IDENTIFICAR FIGURINHAS FALSAS

Os especialistas apontam diversos sinais que podem ajudar os consumidores a identificar produtos falsificados. A embalagem é um dos primeiros indicadores. Os pacotes originais possuem acabamento metalizado, fino e liso. Já as versões falsificadas costumam utilizar materiais mais grossos e ásperos.
Outro detalhe importante está no corte das figurinhas. As originais apresentam acabamento uniforme e alinhado, enquanto as falsificadas frequentemente exibem bordas tortas ou imagens desalinhadas. A qualidade da impressão também merece atenção.
Figurinhas falsas geralmente apresentam cores desbotadas, excessivamente saturadas ou baixa definição. Nas versões holográficas, o brilho costuma ser inferior ao padrão oficial. No verso das figurinhas, logos da fabricante e da FIFA devem aparecer com nitidez. Impressões borradas, textos apagados ou erros ortográficos são fortes indícios de falsificação.
DIREITOS DO CONSUMIDOR EM CASO DE GOLPE
A advogada Adriana Faria explica que consumidores que recebem produtos falsificados ou diferentes do anunciado possuem garantias asseguradas pelo Código de Defesa do Consumidor. Nessas situações, é possível exigir a substituição do item, o cumprimento da oferta ou o reembolso integral dos valores pagos, incluindo despesas com frete.
A especialista também lembra que compras realizadas pela internet contam com o direito de arrependimento, permitindo ao consumidor desistir da aquisição em até sete dias após o recebimento do produto, sem necessidade de justificativa.
O QUE FAZER APÓS CAIR EM UMA FRAUDE
Quem percebe ter sido vítima de um golpe deve agir rapidamente. A orientação é reunir comprovantes de pagamento, anúncios, conversas, e-mails e qualquer outro documento que possa servir como prova.
Também é recomendável comunicar imediatamente a instituição financeira responsável pela transação, registrar boletim de ocorrência e formalizar reclamação junto aos órgãos de defesa do consumidor. Dependendo do caso, o consumidor ainda pode buscar reparação judicial pelos prejuízos sofridos.
OPERAÇÕES POLICIAIS INTENSIFICAM COMBATE ÀS FALSIFICAÇÕES

O crescimento do mercado ilegal também mobilizou as forças de segurança. Em Minas Gerais, a Polícia Civil realizou a operação "Álbum Fantasma", que resultou na apreensão de álbuns e pacotes de figurinhas falsificadas. Duas pessoas foram presas em Patos de Minas, no Alto Paranaíba.
Já em São Paulo, uma ação do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) recolheu mais de 85 mil álbuns e figurinhas da Copa do Mundo comercializados irregularmente. Na operação, cinco pessoas foram presas em flagrante e responderão por crimes relacionados à propriedade industrial.

RESPONSABILDADE PODE ATINGIR VENDEDORES E PLATAFORMAS
Segundo Adriana Faria, a comercialização de produtos falsificados pode gerar consequências civis, administrativas e criminais. Os vendedores respondem diretamente pela autenticidade dos produtos e pelas informações prestadas aos consumidores. Em determinadas situações, marketplaces e plataformas digitais também podem ser responsabilizados, especialmente quando integram a cadeia de fornecimento e falham em impedir práticas fraudulentas.
Com a proximidade da Copa e o aumento da procura pelos álbuns, especialistas reforçam que cautela e atenção aos detalhes continuam sendo as melhores estratégias para evitar que a diversão da coleção termine em prejuízo.
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