Lesões na medula espinhal estão entre os quadros mais devastadores da medicina. Em questão de segundos, movimentos podem ser perdidos e a autonomia, drasticamente reduzida. Apesar de avanços cirúrgicos e na reabilitação, ainda não existe um tratamento capaz de restaurar plenamente as funções motoras em casos graves. É nesse cenário que surge a polilaminina, uma substância desenvolvida no Brasil que começa a entrar na fase de testes clínicos e desperta expectativa — acompanhada de cautela.
A polilaminina é uma versão modificada da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano e abundante na placenta. O composto foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e teve, no início deste ano, autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 de estudos clínicos — etapa que avalia a segurança da substância em humanos.
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A laminina tem papel fundamental na formação de tecidos e no crescimento celular, especialmente durante o desenvolvimento embrionário. No sistema nervoso, ela está associada ao crescimento dos axônios — estruturas dos neurônios responsáveis por transmitir impulsos nervosos e que são rompidas em uma lesão medular.
A polilaminina é formada por um complexo de moléculas de laminina organizadas em laboratório. A ideia é que ela funcione como uma espécie de “andaime biológico”, oferecendo suporte para que os axônios lesionados possam voltar a crescer.
Diferentemente de proteínas totalmente recombinantes, a laminina utilizada no processo é extraída de placentas doadas por gestantes após o parto. O material passa por rigoroso processo de triagem, extração e purificação antes de ser preparado para aplicação. A mistura final é realizada no centro cirúrgico, pouco antes da injeção na medula espinhal do paciente.
O que os estudos já mostraram
Antes de chegar aos testes em humanos, a polilaminina foi avaliada em células isoladas e em modelos experimentais com animais. Segundo a equipe responsável, os resultados indicaram crescimento consistente de axônios em diferentes tipos de lesão.
Em um estudo preliminar divulgado como pré-print, ou seja, ainda sem revisão por especialistas independentes, oito pacientes com lesões medulares completas receberam a substância em caráter experimental. Seis deles apresentaram algum grau de recuperação motora, o que representaria uma taxa de 75% de melhora, comparada a cerca de 15% observados em dados históricos de casos semelhantes.
Apesar do resultado considerado promissor pelos pesquisadores, o estudo teve número reduzido de participantes, não contou com grupo de controle paralelo e ainda não passou pelo crivo formal da revisão por pares. Por isso, não é possível afirmar eficácia com base nesses dados.
"Neste momento, não tenho certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é possível", destaca a professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera as pesquisas na UFRJ.
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O que acontece agora
A fase 1 aprovada pela Anvisa deverá envolver cinco pacientes com lesão medular completa na região torácica. O foco será avaliar segurança e possíveis efeitos adversos. A aplicação ocorrerá durante a cirurgia realizada até 72 horas após o trauma.
Se os resultados forem considerados satisfatórios, o estudo avança para a fase 2, que investigará a eficácia do tratamento em um número maior de participantes. Uma eventual fase 3 ampliará ainda mais o rigor das análises. Apenas após esse processo completo, a substância poderá ser avaliada para registro definitivo.
A expectativa dos desenvolvedores é concluir cada etapa em cerca de um ano, mas o cronograma depende da evolução dos dados clínicos.
Entre expectativa e prudência
A polilaminina representa uma das iniciativas mais promissoras da pesquisa brasileira na área de lesões medulares nas últimas décadas. A autorização para testes clínicos é um marco científico relevante. Ainda assim, o caminho até uma eventual aprovação é longo.
Por enquanto, a substância é uma esperança em construção, sustentada por resultados iniciais animadores, mas que ainda precisa atravessar as etapas rigorosas que separam a promessa do tratamento consolidado.
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