Os carros chineses no Brasil entraram em uma nova fase de expansão em 2026, com novas marcas, investimentos industriais, lançamentos e estratégias para conquistar consumidores. A quinta edição do Festival Interlagos, no Autódromo José Carlos Pace, em São Paulo, mostrou a força dessa ofensiva e a crescente disputa com fabricantes tradicionais.
O movimento representa uma terceira etapa da presença chinesa no país. Entre 2017 e 2023, a Caoa Chery ajudou a reduzir a desconfiança inicial do consumidor. Depois, BYD e GWM impulsionaram os eletrificados. Agora, marcas como Baic, DFM, iCaur e IM Motors chegam com planos para disputar volume e ampliar rapidamente suas operações, apostando em preços, tecnologia, produção nacional e expansão das concessionárias.
CONTEÚDO RELACIONADO
- Gigante chinesa anuncia fábrica no Brasil com 10 mil empregos
- Quatro marcas chinesas chegam ao Brasil com novos carros
- Montadoras chinesas dominam vendas no Brasil; confira o ranking!
MERCADO CRESCE, MAS CONTINUA CONCENTRADO

Segundo levantamento da K.Lume Consultoria, marcas de origem ou controle chinês saltaram de 169.304 emplacamentos em 2024 para 244.913 em 2025, alta de 44,7%, enquanto o mercado geral avançou 2,4%. Apesar disso, BYD, Caoa Chery e GWM concentraram 93,6% das vendas chinesas de carros de passeio e comerciais leves em 2025. Com Omoda & Jaecoo e Geely, a concentração chegou a 98%.
O número de empresas, porém, aumentou rapidamente. Eram 20 marcas ou divisões chinesas vendendo, testando ou homologando veículos no Brasil em 2024. No fim de 2025, eram 38. Muitas das novas empresas ainda vendem menos de 1.500 unidades por ano e não possuem produção local, logística de peças ou redes estruturadas de assistência.
Quer mais notícias automotivas? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.
A estratégia chinesa combina tecnologia, equipamentos de série e preços competitivos, aproveitando o espaço aberto durante a transição tecnológica da indústria tradicional. O setor, entretanto, permanece vulnerável a mudanças tributárias, oscilações cambiais e possíveis reações das montadoras já instaladas.
BAIC QUER PRODUÇÃO NACIONAL

A Baic chegou ao Brasil com a meta de estar entre as cinco maiores montadoras em vendas até 2030. Comandada no país pelo COO Oswaldo Ramos, ex-executivo ligado à expansão da GWM, a empresa pretende abrir de 30 a 50 concessionárias ainda em 2026 e chegar a 150 até o fim de 2027.
Para escapar do impacto da alíquota de 35% sobre importados, a fabricante estuda produção integral no país, seja por meio da aquisição ou parceria com uma fábrica existente, seja pela construção de uma unidade própria. Um acordo técnico com a Bosch prevê o desenvolvimento de um motor híbrido flexível. A fábrica abastecerá as marcas Baic e Arcfox, enquanto a divisão premium Stelato ficará para uma segunda etapa.
A Arcfox será responsável pelos primeiros produtos. O T1, crossover elétrico na faixa de R$ 150 mil, disputará espaço com BYD Dolphin, Geely EX2 e GWM Ora 03, além de SUVs compactos como T-Cross e Creta. Já o Arcfox T5, próximo de R$ 200 mil, tem autonomia homologada de 660 km no ciclo NEDC e mira modelos como BYD Yuan Plus e GAC Aion Y.
A partir de 2027, a Baic pretende lançar dois utilitários e uma picape, incluindo o SUV B30. Em 2028, o cronograma prevê mais cinco modelos, entre eles o X55, que deverá utilizar a tecnologia híbrida flexível desenvolvida no Brasil e enfrentar concorrentes como Jeep Compass, Toyota Corolla Cross e Caoa Changan CS75.
OUTRAS MARCAS AMPLIAM A OFENSIVA

A DFM, do grupo Dongfeng Motor Corporation, anunciou 11 modelos para o Brasil e pretende credenciar ou abrir 60 concessionárias. A companhia também estuda a implantação de produção nacional. Já a iCaur, submarca elétrica da Chery, aposta em SUVs de visual quadrado e proposta aventureira, como V23, V25 e V27, com ampla possibilidade de customização.
A grafia iCaur foi adotada no Brasil para evitar conflitos de propriedade intelectual relacionados ao nome iCar. A mudança também considera que a Caoa Chery já vendeu um modelo com essa denominação no país entre 2022 e 2023. A pronúncia, porém, continuará sendo “iCar”.
No segmento premium, a MG Motor apresentou a IM Motors e o SUV elétrico IM6. O modelo tem 4,90 metros de comprimento, 767 cavalos, 81,7 kgfm de torque, aceleração de 0 a 100 km/h em 3,5 segundos e velocidade máxima de 305 km/h. O carro tem cinco estrelas no Euro NCAP, autonomia de 400 km pelo Inmetro, esterçamento nas quatro rodas, suspensão adaptativa e telas que somam 36,8 polegadas.
AS PIONEIRAS TAMBÉM REAGIRAM
As marcas chinesas já estabelecidas não ficaram paradas. A BYD antecipou o projeto da picape compacta Mako, que será produzida em Camaçari, na Bahia. A Caoa Chery apresentou a reestilização do Tiggo 7, com versões a combustão e híbrida plug-in, e reduziu preços. O Tiggo 7 Sport passou a custar R$ 142 mil, abaixo do Jeep Compass.
A GWM mostrou o Tank 400, ainda sem preço divulgado, enquanto a Jetour apresentou o G700 e a GAC expôs seu portfólio. Audi, Chevrolet, Citroën, Nissan, Hyundai, Porsche, Mercedes-Benz e Volkswagen, entre outras fabricantes tradicionais, não participaram do Festival Interlagos.
PREÇOS DOS NOVOS AFETAM OS USADOS
A expansão das chinesas também interfere no mercado de seminovos. Segundo Frederico Zornig, da Quantiz Pricing Solutions, a entrada de novos concorrentes mudou a formação de preços e aumentou a pressão para que montadoras tradicionais ofereçam descontos, bônus e condições especiais de financiamento.
Sergio Sousa, da Infocar, destaca que a redução dos preços dos veículos zero-quilômetro acelera a depreciação dos usados. Por isso, lojistas precisam acompanhar quilometragem, histórico de leilões, registros cadastrais e débitos antes de formar seus estoques.
Mesmo nesse cenário, os eletrificados chineses demonstram boa liquidez. Estudo Megadealer, baseado em dados da Auto Avaliar de 3.089 concessionárias, apontou que híbridos e elétricos de BYD e GWM tiveram retorno médio sobre o investimento de 129% para lojistas em junho, contra 73% da média do mercado. O tempo médio nos pátios foi de 36 dias, embora a margem bruta tenha recuado de 10,3% para 10,1%.
PUBLICIDADE ENTRA NA DISPUTA
A briga pelo consumidor também chegou à publicidade. Dados do Kantar Ibope Monitor mostram que fabricantes chinesas responderam por cerca de 27% dos investimentos publicitários da indústria automotiva no primeiro semestre de 2026, enquanto a média mensal de investimentos da categoria cresceu 25% em relação a 2025.
Para Fabio Tramontano, da agência W+E, o grande número de lançamentos obriga as marcas a acelerar o reconhecimento junto ao público. Por isso, atletas, artistas, futebol e criadores de conteúdo passaram a ser utilizados para aproximar fabricantes ainda desconhecidas do consumidor brasileiro.
O principal desafio, porém, será transformar lançamento em permanência. A sobrevivência das novas marcas dependerá da capacidade de financiar operações de longo prazo, manter concessionárias saudáveis, garantir peças de reposição, oferecer assistência técnica, controlar custos de reparação e preservar o valor dos veículos no mercado de usados. O Festival Interlagos mostrou, portanto, que a presença chinesa já mudou o jogo, mas a disputa pela permanência no Brasil está apenas começando.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar