Há algo de contraditório em convidar o mundo inteiro para uma festa e, ao mesmo tempo, fazer com que muitos convidados se sintam indesejados na porta de entrada.
A Copa do Mundo transforma qualquer país-sede em vitrine global. Milhões de pessoas acompanham os jogos, milhares atravessam continentes para apoiar suas seleções e diferentes culturas se encontram em um mesmo espaço. O futebol, talvez mais do que qualquer outro esporte, tem a capacidade de aproximar povos que dificilmente se cruzariam em circunstâncias normais.
Nos Estados Unidos, porém, essa celebração vem sendo acompanhada por episódios que levantam questionamentos sobre a forma como estrangeiros estão sendo recebidos.
Um dos casos que mais chamou atenção foi o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Escolhido pela FIFA para atuar no Mundial, ele desembarcou em Miami com a documentação exigida, mas acabou impedido de entrar no país após uma inspeção migratória. A decisão encerrou seu sonho de participar da competição e gerou repercussão internacional.

Pouco depois, veio a notícia envolvendo o atacante iraquiano Aymen Hussein. O jogador passou cerca de sete horas sendo interrogado em um aeroporto americano antes de receber autorização para entrar no país. Enquanto isso, um fotógrafo ligado à delegação do Iraque teve a entrada negada pelas autoridades.
São situações diferentes, cada uma com suas particularidades, mas que ajudam a construir uma percepção incômoda. Para muitos visitantes, a mensagem transmitida não é a de acolhimento, mas a de desconfiança.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o papel dos Estados Unidos no cenário internacional. Enquanto o país recebe seleções, torcedores e jornalistas para um dos maiores eventos esportivos do planeta, continua ocupando posição central em conflitos e operações militares ao redor do mundo. A imagem de uma nação que promove a união entre os povos por meio do esporte convive com a de uma potência envolvida em decisões que influenciam guerras e disputas internacionais.
O futebol costuma ser apresentado como uma linguagem universal. Durante noventa minutos, diferenças políticas, religiosas e culturais parecem perder espaço para a paixão pelo jogo. Mas a realidade não desaparece quando a bola rola. Ela continua presente nos aeroportos, nos controles de imigração, nas barreiras burocráticas e nas experiências vividas por quem atravessa fronteiras.
Talvez a grandeza de uma Copa do Mundo não esteja apenas nos estádios modernos ou na organização do espetáculo. Ela também se mede pela forma como um país recebe aqueles que chegam de longe.
Quando o mundo é convidado para entrar, espera-se mais do que infraestrutura e segurança. Espera-se respeito, hospitalidade e a sensação de que todos pertencem à mesma festa.
A taça será entregue, os campeões serão celebrados e os holofotes se apagarão. O que permanecerá na memória de muitos visitantes não será apenas o resultado dos jogos, mas a maneira como foram tratados antes mesmo de chegarem às arquibancadas.
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