A falta de representatividade pode influenciar a forma como mulheres lésbicas compreendem a própria sexualidade, constroem relacionamentos e encontram espaços de pertencimento. A questão ganha destaque neste 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, data que chama atenção para as experiências e desafios vividos por mulheres lésbicas no Brasil.
Nesse contexto, existe uma experiência que nem sempre é percebida de imediato: a solidão lésbica. O termo não significa necessariamente estar sozinha, mas pode descrever a sensação de não encontrar pessoas com experiências semelhantes ou de não se sentir completamente compreendida dentro dos próprios círculos sociais.
Para a psicóloga Paula Machado, uma mulher pode ter família, amigos e uma rede de apoio e, ainda assim, experimentar esse sentimento.
“Uma mulher pode ter uma rede de apoio e, ainda assim, sentir que existe uma parte muito importante da sua experiência que ninguém ao redor consegue compreender completamente.”
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O que é solidão lésbica?
A solidão lésbica está relacionada à falta de identificação, pertencimento e referências dentro da experiência de mulheres que se relacionam afetivamente com outras mulheres.
Desde a infância, muitas pessoas são expostas à ideia de que relacionamentos amorosos acontecem necessariamente entre homens e mulheres. Essa heterossexualidade apresentada como padrão aparece em conversas familiares, filmes, livros, músicas e até em perguntas cotidianas sobre namorados.
Para mulheres lésbicas, a percepção de que sentem atração por outras mulheres pode, portanto, vir acompanhada de outra descoberta: a necessidade de entender como viver uma experiência para a qual elas nem sempre tiveram exemplos.
Segundo Machado, quando uma mulher cresce sem referências, pode ser mais difícil imaginar diferentes possibilidades de relacionamento, família, feminilidade e futuro.
“Apoio não significa necessariamente pertencimento”, explica a especialista.
Falta de referências pode atrasar autodescoberta
A experiência também aparece no relato da influenciadora brasiliense Karyn Sousa, de 25 anos.
Com mais de 500 mil seguidores nas redes sociais, ela atualmente produz conteúdos relacionados a lifestyle, moda e representatividade. Mas o processo de compreender a própria sexualidade foi marcado pela falta de referências.
Karyn conta que tinha uma visão estereotipada sobre o que significava ser lésbica e acreditava que precisava apresentar determinado comportamento ou estilo.
“Eu tinha uma visão muito estereotipada do que era ser lésbica, achava que precisava ter um estilo e um comportamento específicos, e isso acabou atrasando um pouco o meu processo.”
A experiência mostra como a representatividade não está relacionada apenas à visibilidade de uma orientação sexual, mas também à possibilidade de reconhecer diferentes maneiras de vivê-la.
Representatividade amplia possibilidades
Encontrar mulheres lésbicas na vida cotidiana ou por meio da literatura, do cinema, da televisão e das redes sociais pode ajudar a ampliar esse repertório.
De acordo com a psicóloga, ter contato com diferentes histórias permite perceber que não existe um único modelo de mulher lésbica.
Isso inclui diferentes formas de expressar a feminilidade, construir relacionamentos, formar uma família e viver a sexualidade.
“Quando você nunca viu alguém como você vivendo determinada vida, pode ser muito mais difícil acreditar que é possível.”
Foi justamente essa percepção que levou Karyn a transformar a própria experiência em conteúdo na internet.
Segundo a influenciadora, muitas mulheres passaram a enviar mensagens dizendo que se identificavam com suas experiências e encontravam nos conteúdos uma referência que não tiveram durante o processo de descoberta.
Para ela, ocupar esse espaço também significa oferecer às mulheres mais jovens a possibilidade de enxergar diferentes caminhos.
“Eu sei o quanto foi importante para mim encontrar mulheres com quem eu me identificasse, então, poder ser essa referência para outras meninas, principalmente para as mais novas, é uma honra enorme.”
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